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domingo, 27 de dezembro de 2015

Eu sei que vou te amar


Te escrevo sabendo apenas que você virá. E falo assim, sem mais receio de parecer louca e/ou tonta, só porque sei que você é, em algum lugar desse mundão de meu Deus. É você. E eu exercito a minha fé ao te falar assim, com tanta convicção. Eu te acredito e sigo fazendo de você a minha prece de Natal, meu desejo de Ano Novo, meu pedido a estrelas cadentes. Mas não peço para que você exista, nem que sua chegada seja antecipada. Sei que você é. Sei que você vem. Leve o tempo que precisar para que seja pra sempre. Eu só peço a graça de te reconhecer. Peço o dom de te olhar e, desde a primeira vez, saber que eu vou te amar.
Não, não vai ser amor à primeira vista, essa coisa vazia. Mas, à primeira vista, vou saber ver em você terreno fértil pro meu amor brotar. E então ele não será mais meu, e sim nosso. Vou - vamos! - pouco a pouco cuidando da terra e, quando nos dermos conta... Teremos botões de rosas brotando por todo canto dentro de nós. E mesmo agora, que nem chegou a hora de semear, já me pego olhando as sementes tão lindas e intocadas que tenho em mim, imaginando-as florir. Dentro do peito, meu amor dorme o sono dos justos. Foi quase acordado por alguns, mas ainda não era hora dele despertar. E nenhum dos despertadores era você. Apenas quando você vier é que ele vai se espreguiçar debaixo das cobertas e levantar feliz, satisfeito. Acordar pra vida. A nossa vida. Só você pode me acordar o peito e eu vou saber disso quando te ver.
No mais, desde já desejo que a gente se reconheça, se encontre (no sentido mais amplo que a palavra possa ter) e se ame. Desejo pra gente mãos dadas na beira da praia, sete ondas puladas nos próximos réveillons, dormidas juntos de conchinha, risos doces... E por falar em doce, desejo pra gente algodão doce, bolo de cenoura com calda de chocolate, sorvete, fins de tardes dominicais no parque. Desejo pra gente pores do sol, nasceres do sol, luas cheias, eclipses, banhos de chuva, de piscina, de mar... Mas de chuveiro também vale.  Desejo que a minha bagagem não te incomode, só te acrescente; e que a sua seja da mesma forma pra mim. Desejo pra gente voz e violão, letra e música, sons. Uma trilha sonora memorável. Desejo pra gente filhos, dois pares de olhos sempre brilhando, aplausos sinceros de um para as conquistas do outro. Alegrias multiplicadas, dores divididas. Brigas. Pras pazes virem se fazendo amor. Eu desejo tanto pra gente, e desejo tanto a gente, que eu sei: quando te ver, vou ter a certeza de que vou te amar. 





quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Pressa de amar. Prece de amor.


Os dias começavam a variar a velocidade com a qual passavam. Novembro, tão doce, parecia ter ido embora como que em uma semana. Dezembro já chegava mais austero, como que cobrando racionalidade, apontando o fim de um ano difícil. Pela dificuldade toda da vida, o fim do ano era consolo. Mas, por outro lado, era uma espécie de cobrança de realidade. Era algo que parecia querer estipular um prazo de validade para aquela coisa - nova, mas velha conhecida - que teimava em ocupar espaços no peito dela durante as últimas semanas. Só que tudo não passava de abstração. O tempo que aquilo levaria era indefinido. Ela poderia estar curada em um dia, uma semana, um mês, um ano... Ou nunca. Não era possível prever.
E enquanto continuava imersa neste tempo indefinido, seguia sonhando com ele. Todas as noites. Desde a primeira vez que o vira. Os sonhos eram diferentes, mas no geral tinham o mesmo enredo. Era sempre ela indo atrás dele: batendo à sua porta, telefonando, mandando mensagens. Podia ser um sinal do universo para que ela o procurasse. Ou só o reflexo da sua vontade reprimida. Ela queria, mais que qualquer coisa naqueles dias, procurar por ele. Mas não sabia como, e muito menos se era a coisa mais correta e sã a se fazer.
Sanidade. A dela parecia ter se esvaído. Ou estava momentaneamente escondida num lugar que ela não sabia onde ficava. Mas estava tentando não pensar naquilo, naquele momento. Estava estranhando seus próprios desejos e atitudes, porém, achava que a sensação merecia ser desfrutada. Afinal, poderia ir embora da mesma forma repentina como havia chegado.
Era uma agonia inebriante e tudo que ela conseguia fazer era sentir a necessidade de mais. Sentia falta dele como se sente a falta de gente muito especial na vida, só que mal o conhecia. Tinha saudade dos poucos dias em que pôde acordar com ele por perto. Tinha uma vontade desesperada de voltar no tempo. Mas como é sabido de todas as gentes, isso não é permitido a ninguém. Ela teria de construir novas lembranças. Não poderia voltar, só seguir e esperar com todo coração que o encontrasse de novo em alguma esquina, algum lugar. Não tinha mais a quem recorrer, senão a Deus, anjos, santos, rosas... Pedia perdão antes de cada prece, pensando estar gastando sua fé com coisa tão pequena, mas ainda assim, rezava. Suplicava. Fazia novenas. Ficava se perguntando se não seria pecado pedir a Deus o coração daquele moço, com um mundo todo sofrendo tanto por causas mais sérias, mais reais. Mas mesmo assim, não deixava de pedir. Era só o que podia fazer. E era tudo o que faria. E continuaria fazendo. Até que o céu a ouvisse. Até que suas orações a levassem para junto dele outra vez.

sábado, 7 de novembro de 2015

Xeque


Sentiu uma vontade incessante e escandalosa de sair correndo naquele dia. Sabe Deus em qual direção. Talvez para o mar, mas terminaria afogada. Ou melhor, já se sentia naufragar mesmo em terra firme: suas emoções indecifráveis não a deixavam abastecer os pulmões como devia. Inspirava um ar entrecortado. Estava agitada demais para saber onde se lançar.
Dentro da caixa do peito, o coração protestava. E ela não entendia. Era verdade que os tempos não andavam exatamente fáceis, mas aquele mal estar emocional agudo e repentino parecia não fazer o menor sentido. Era a agonia que não lhe permitia discernir. Se fosse capaz de se ouvir um pouco, perceberia que aquele som, ensurdecedor e desafinado, que lhe vinha de dentro, nada mais era que sua alma, em movimento. Estava rompendo mais um de seus casulos. Agora, um no qual nem sabia que havia se enfiado.
O tempo, que até então se arrastava, parecia ter resolvido correr. O calor que fazia àquela época do ano colaborava com o sentimento de ansiedade. Convites: a cidade a chamava para fora, a vida a chamava para ler - ou escrever - as próximas páginas, e ainda tinha aquele quê de hiperatividade, que a intimava a se mover. Tinha que acabar aquela partida, para dar lugar a outras. Era chegada a hora de mais um xeque-mate.
E num piscar de olhos, percebeu: o coração revolto, que bradava no peito, não estava simplesmente batendo. Estava mudando.

sábado, 27 de junho de 2015

Vecchio


Não tenho escrito nada de muito valor desde que nosso laço afrouxou. Ele que esteve tão firme, com fitas brilhantes, agora está quase que desatado por completo. Uma pena. Em consequência disso, me falta inspiração. Mas quero te dizer que fui feliz. Nossa relação cintilava. Nos entendíamos como poucos, sendo poucos, dentre muitos. E os dias em que você não ligava se arrastavam pela passarela do tempo. Às vezes, minha primeira frase pela manhã, ao falar com Deus, era "que ele me ligue hoje. Amém!". Nem sempre o amém se fez. Mas quando se fez, eu fui muito feliz. Eram minutos vários, alguns que até se faziam hora, e eu me sentia bem. Toda aquela euforia doce que eu já conhecia, agora tomava uma forma inédita: conseguia, em meio ao descompasso do meu coração, ser serena.
Tem dias, como hoje, que a falta de você lateja. Às vezes penso em telefonar, perguntar como foi o dia, como têm sido os dias longe de mim... Mas tenho medo da resposta. Coragem nunca foi o meu forte. Nem frieza. Aí fico aqui no meu canto, curtindo o que me resta: a memória de um calor que não mais me aquece. Sabe, velho, naquela época eu poderia jurar que... Mentira. Eu não jurava. Duvidava até a última gota. Talvez por isso mesmo hoje estejamos como estamos. Você aí. Eu aqui. E vale ressaltar que entre "aí" e "aqui" parece haver um largo abismo. Safo mesmo é Frejat, que sabe ler sinais do corpo em conversas demoradas. Eu, analfabeta sentimental, não soube. Ou soube e fingi não saber porque, pra variar, tive medo.
Essa semana eu estive pensando em como tudo teria sido diferente se você tivesse falado o que eu queria ouvir assim, com todas as letras. Pensei em como nosso destino seria outro se, ao invés de esperar que minha autoestima limitada juntasse lé com cré, você tivesse ido direto ao ponto, como tantos outros fazem. Mas talvez o meu medo tivesse me segurado da mesma forma, e depois de ir direto ao ponto, você voltasse com as mãos vazias de mim e eu pegasse o caminho oposto com as mãos vazias de você, como sempre é. E aí você iria parar na minha galeria dos outros, que tocaram a campainha e deram com a cara na minha porta. Eu e minha incapacidade de doação afetiva teríamos transformado você em mais um que não foi convidado para festa. Só que não seria verdade. Na real, você deveria ter passe livre. E talvez eu só esteja dizendo isso, da sua entrada liberada, porque sei que você não vem mais. Tenho um tesão louco por impossibilidades.
No fundo, no fundo... Não sei se a nossa amizade era de fato benéfica pra mim. Sempre, em alguns trechos do caminho, eu terminava alimentando uma ponta de ilusão. Acho que era ilusão. Hoje, olhando aquilo que a gente tinha, não dizer o que era realidade e o que era fruto da minha imaginação fértil. Para mais, ou para menos. Sim, porque eu posso ter criado em alguns momentos a ilusão de que você me amava. Mas, pelo medo de sempre, eu posso também ter justamente me iludido pelo contrário. Pelo sim ou pelo não, é bom que eu não te tenha com justificativas ambíguas. As duas possibilidades seriam dolorosas: ter desperdiçado - por pura cegueira - o amor que você tinha para mim; ou ter te perdido justamente porque nunca tive, e porque você nunca me amou. O meio-termo me conforta mais. Ficar pensando nessa história e nos seus "ses" desvia um pouco minha atenção do final indesejado. Ou inevitável. Por via das dúvidas, foi a maldade do tempo que quis que você estivesse aí e eu aqui. Só porque "aí" e "aqui" nunca serão o mesmo tempo, nem o mesmo lugar. Nem o mesmo querer. Nem o mesmo nada. "Aqui" e "aí" são ridícula, imutável e cruelmente opostos. Água e óleo.
Mas sabe que ainda acho que seria bom se você viesse, velho? Nem que fosse para, ao se tornar possível e ao alcance, me fazer deixar de te querer.



segunda-feira, 1 de junho de 2015

Adeus, maio velho! Feliz junho novo!

Chegou ao fim um maio nebuloso. Foi um mês-montanha-russa, no qual encarei os altos e baixos ora gritando, perdendo a compostura... E ora engolindo o grito. Ora em êxtase, e ora sentindo muita dor. E o mais irônico é que, dentre todos os meses do ano, o que eu mais esperei foi maio. Agora, ao fim, eu já não via a hora de maio partir. E foi-se. Graças a Deus.
No começo desse mês eu experimentei doçurinhas. Ele não foi de todo ruim. Mas no que foi ruim, decidiu-se por sê-lo com convicção. Devo admitir que no se propôs a fazer, maio caprichou e fez bem feito. Maio me feriu. Ou melhor, maio deixou que me ferissem. Não satisfeito, foi além: deixou que eu ferisse gente, só pra eu sofrer ainda mais, ao me perceber no papel do algoz. Tinha que ter uma cereja no bolo. E tinha que ser bem amarga.
Valeu a viagem. Agora deito nos braços do mês que entra. Conto com a brisa de junho para me manter sã, com a cabeça fria e no lugar. Conto com o aconchego que o frio pede, para poder encontrar o perdão que em maio não consegui dar, nem receber. Conto com a chuva de junho, para me lavar. Conto com a magia dos recomeços, para que toda mazela de maio tenha ficado mesmo por lá. Conto com os santos de junho, para orarem por mim.

domingo, 16 de novembro de 2014

Amor gramatical

Eu não soube que era você por causa do sorriso torto ou da voz sedutora. Não foi a sua facilidade em ser um homem naturalmente atraente que me fez perceber que era você, e não qualquer outro. Não foi por causa da minha crescente confusão quando estou ao seu lado que eu soube. Não foi a síncope cada vez que você telefona. Não foi o frio na barriga ou o coração acelerado que me disseram que era você o cara, e não qualquer outro neste mundo. Poderia ser qualquer um: meu vizinho, o carteiro, o cara que pega o mesmo ônibus que eu todas as manhãs, Seu Manoel da padaria. Podia ser qualquer um, mas é você. Todo torto, todo errado, todo minuciosamente traçado e pensado pra mim.
Eu soube, quando dentre todas as suas falhas, relevei principalmente o seu português ruim. O não saber conjugar o verbo “vir”, em qualquer outro ser humano, me irritaria profundamente. Me irritar mais do que isso, só o fato de você parecer ignorar que o verbo viajar é com j, mas viagem, o substantivo, é com g. E quer saber? Eu não me importo. Porque a gramática é ruim, mas o papo tão bom!
Eu costumo perder amigos e não as correções ortográficas. Mas deixo passar os seus deslizes gramaticais todos, porque me recuso a perder você. E, acredite, em se tratando de mim, fingir não reparar na ausência de coesão da sua escrita é uma grande prova de amor.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Manifesto pelo direito de quebrar a cara


Caçula. Menina. Super-protegida. Quando eu era pequena, tinha uma "merió amiga", que além de estudar comigo na escola, era minha vizinha. Duda, o nome dela. Duda era virada. Eu, quietinha até demais. Duda descia as escadas do prédio pulando de dois em dois degraus, às vezes mais. Eu descia devagarzinho, de ladinho, segurando na parede, por falta de corre-mão. Degrau por degrau. Uma velhinha de 95 anos habitando o corpinho de uma menininha de 2 ou 3. Nas aulas de natação, Duda subia o trampolim quando a professora não tava olhando e tchibum na piscina. Eu tinha medo de me livrar das boias na piscina funda, e não desgrudava da borda. Terminei trocando as aulas de natação pela ginástica rítmica: a terra firme era mais segura. Nunca aprendi a nadar, assim como nunca aprendi a andar de bicicleta. E passei boa parte da vida numa bolha que me foi imposta. Mas eu não me queixava. Nunca fui de reclamar das coisas, e como não sabia como era a vida fora daquele sistema protetor, não me fazia falta. Me fazia era fraca, e eu não me dava conta.
Eu tive a melhor mãe do mundo. Mesmo. Não é só questão de força de expressão. Cada um que ache a sua mãe a melhor, eu sei. Mas a minha mãe, meu caro... Você não tá me entendendo. Ela possuía o coração mais bondoso, era a pessoa mais generosa que já conheci. Só que em tudo tem um porém. Hoje, com um pouco mais de idade e um pouco menos de mundo fantástico na cabeça, sei que minha mãe me achava frágil. E eu era, só que me manter guardada debaixo de suas asas, ao contrário do que ela parecia pensar, não era algo que me ajudasse objetivamente. Já viu bicho criado em cativeiro conseguir se virar na mata? Pois é. O pensamento é por aí. 
Por esses dias eu tava pensando nas viagens do colégio que deixei de ir. Minha mãe tinha medo que eu, bobinha, fosse influenciada pelos adolescentes rebeldes que me cercavam e fizesse coisas que não fossem legais. Ela era professora, sabia bem o tipo de marmota que os alunos aprontavam nessas viagens... "Pedagógicas". Mas eu era tão bobinha, mas tão bobinha... Que era boa demais! Ela não podia imaginar, mas o motivo pelo qual ela não me deixava ir, era o mesmo pelo qual deveria me dar permissão. Não importava se ela não estava olhando. Qualquer coisa que eu fizesse, e que a desagradasse, me faria sofrer muito. Eu tinha uma consciência grande demais para uma garota daquela faixa etária e, qualquer passinho fora da linha, essa mesma consciência me pesava toneladas. Na minha vida escolar, por exemplo, eu tirei muita nota vermelha nas matérias de exatas. Era filha de um contador, mas não tinha habilidade com os números. Foram as palavras, herdadas da minha mãe professora de Português, que me fisgaram desde sempre. Eu poderia até começar a falar sobre quão emocionante foi o momento que descobri que sabia ler. Mas esta é uma outra história. Voltemos: os números e minha falta de aptidão para lidar com eles. Eu sofria profundamente pelas minhas notas vermelhas. Mas sofria mesmo. Muito. Me achava uma pessoa horrível. Era uma auto-tortura psicológica meio pesada. Até o dia em que, nos últimos meses de vida escolar, no meio dos meus dramas mexicanos, uma professora me aconselhou: "Pare de se preocupar tanto. A sua vida é tão mais que isso! Tem um mundo lá fora da escola, e quando isso aqui passar, você vai olhar pra trás e vai ver como tudo aqui é tão pequeno". Aquela fala ocasionou o começo do estalo que me levou à estrada que me fez quem eu sou hoje. E eu não parei de andar. Nem pretendo.
Fiz esse arrodeio todo, resgatando dilemas antigos, só para deixar claro que este texto é um manifesto pelo meu direito de quebrar a cara. Nós, pessoas super-protegidas desde o seio materno, desde o seio familiar, escolar e etc, temos o pleno direito de quebrarmos a cara. Sabe quando eu comecei a crescer? Quando dei de cara no chão, sem ninguém para me segurar, me amortecer a queda ou me por de pé outra vez. Foi quando eu aprendi que em alguns momentos a vida dói mesmo, é natural, e que a dor não precisa ser inimiga. Ela é sinal de que se está vivo e, por sua vez, estar vivo é uma vitória imensa, e um ótimo motivo para arranjar um jeito de se levantar. Um brinde ao ato educativo de se quebrar a cara!
Me manifesto pelo meu direito de me arriscar, de querer coisas que têm 50% de chance de dar certo. Brigo pelo meu direito de dobrar aquela esquina sem GPS para me mostrar se aquela rua é uma alameda ou um beco escuro sem saída. Quero viver essa coisa de escolher a avenida principal ou cortar caminho por uma paralela, sem saber qual das duas opções está engarrafada. Engarrafamento às vezes é bom pra gente pensar. Eu vou gritar pelo meu direito de querer o que eu quero hoje, mesmo sabendo que pode dar errado, só porque a probabilidade de dar certo existe, mesmo que ela seja menor. Eu enfrento a Terceira Guerra Mundial pelo direito de ter exatamente os desejos que eu tenho, porque a vida é pelo menos três coisas: minha, única e curta! Curta demais para viver pisando em ovos. Eu quero pisar firme, sem saber se debaixo dos meus pés tem solo fértil ou areia movediça. Eu quero arriscar, porque eu tenho esse direito. Se não rolar, existem outros caminhos, outras quedas, outras lições. Nenhuma escolha é vazia. 
O mundo pode continuar me achando frágil. Mas olha, mundo, vou te falar uma coisa: eu aguento. Eu estou viva, portanto, aguento perfeitamente essa viagem louca, dolorosa, frustrante, excitante e linda que é viver. Porque se eu não aguentasse, eu simplesmente não estaria aqui.


domingo, 31 de agosto de 2014

Eu tinha dez anos


Tudo na minha vida parece ter acontecido quando eu tinha dez anos. "Eu tinha dez anos" é uma frase corriqueira minha, quem me conhece sabe. Há alguns dias, fiz 22. Mas as minhas histórias mais memoráveis, os causos que mais conto, se passaram todos entre os anos de 2002 e 2003, quando eu tinha dez.
Parei pra lembrar de como foi meu 26 de agosto de 2002. Foi o melhor dos aniversários: o de dez anos. Não teve festa, nem nada disso. Mas eu faltei aula na escola e passei o dia inteiro com a minha mãe. Fomos ao shopping, parque de diversões, depois almoço no meu restaurante preferido. Sempre fui meio ruim de boca, mas me esbaldava naquele cardápio regional. Por ser meu aniversário, eu tinha licença poético-gastronômica pra encher o prato com os olhos. E olha que, como diz um amigo meu, os meus olhos são GRANDES. 
E depois minha família foi encontrar a gente e eu vi todos os meus presentes de aniversário daquele ano ali, na hora que estavam sendo comprados. E voltamos todos juntos pra casa ao fim da tarde, e eu tava tão feliz. Foi uma delícia de dia, o meu primeiro com dez anos de idade. E o ano que se seguiu foi cheio de acontecimentos marcantes, pequenas histórias que eu divido até hoje, 12 anos depois.
Já nem sei bem o que eu pensava pra esse texto quando comecei a escrevê-lo, nem o porquê de eu tê-lo pensado como uma crônica. Mas é isso, mundo: queria dividir com você que quando eu tinha dez anos... Ai, como eu fui inesquecivelmente feliz!