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domingo, 31 de agosto de 2014

Contra o vento


Nosso amor nasceu às 15h do dia 28 de agosto. Uma criança forte, corada, saudável. Inesperada, fruto de um descuido e da falta do uso de meios contraceptivos. Uma surpresa, mas ainda assim, muito querida. Medos, receios, pudores, grilos e crises foram ao chão, junto às nossas roupas jogadas num canto do seu quarto. Nossas vidas mudaram para sempre, depois que demos luz ao nosso amor.
E seguimos, mesmo diante de todos os ventos contrários. Era um tufão de negatividade e a gente agarrado um ao outro, pra não se deixar levar. Era tanta gente que a gente amava dizendo que a gente não ia dar em nada, que por amor a nós, tivemos que amar um ao outro mais do que aos outros, para não nos contaminarmos. E até certo ponto, isso doía, porque as pessoas que equivocavam pela vida em relação ao que havia entre nós eram pessoas que nos amavam e queriam nosso bem. Mas ninguém parecia entender, nem aceitar. A face bela, rica em sonhos e carinho e cuidado mútuos do nosso amor só se tinha revelado a nós dois. O resto do mundo não tinha fé na gente: todos diziam que acabaríamos feridos, ferindo, perdendo tempo de vida útil e tudo o mais de frustrante que pudesse haver no campo afetivo existente entre duas pessoas.
Se toda aquela gente estava certa, eu adoro o nosso jeito de dar errado. Nossas frustrações são belas parcerias, dois filhos lindos, uma casa de praia, cumplicidade sem fim e um álbum de fotografias com incontáveis sorrisos estampados. Do tipo sinceros.


terça-feira, 19 de agosto de 2014

Aos 15



Odeio momentos assim, quando eu percebo que ainda te amo tanto. Quando minha menina de 15 anos chama a atenção da minha mulher adulta de hoje, e joga na minha cara que sou uma farsa. Minha auto-confiança, minha autoestima elevada... São só a auto-piedade de sempre, disfarçada, escondida atrás de tatuagens, escova progressiva e um bom batom vermelho. Eu tenho uma eterna debutante, congelada e triste, morando dentro de mim. Ela às vezes insiste em me mostrar que não passaram: nem ela, nem você.
No fundo, ainda estou esperando no baile que você não foi. Continuo com o vestido rosa pink bordado pela minha mãe. Continuo sentada com um copo d'água na mão, vendo os garçons empilhando cadeiras, achando que você vai aparecer ali na porta. Mesmo que a meia-noite, da valsa, já tenha passado há 61.320 horas. Sim, eu fiz as contas.
Às vezes adianto um pouco meu relógio interior, e passo de debutante à moça que brinda à maioridade, num piscar de olhos. E a minha eu aos 18 anos está numa festa cheia de gente, apertando um copo de whisky entre os dedos, querendo jogá-lo na sua cara. Querendo, por um minuto, virar Carrie, a estranha, e acabar com seu riso cínico, no fatídico baile em que você foi, três anos depois de não ter ido. Eu com 18 anos, sentindo o dobro da dor, por constatar que as lágrimas derramadas aos 15 foram em vão.
E aí vira uma metalinguagem aguda: eu aos 15, esmurrando por dentro o peito da eu aos 18, que por sua vez, dá unhadas de desespero na parede interna do tórax da eu de agora. Que reajo lavando o rosto, me olhando no espelho e vendo que tenho 15 anos. Por mais que as folhas do calendário tenham se lançado ao vento a cada trinta dias - e isso já aconteceu 84 vezes -, eu continuo com 15 anos, te pedindo perdão por te amar tanto e ser a garota estranha da escola, que nunca estará aos seus pés. Eu fui tantas pra mendigar o seu amor, e nenhuma delas foi do seu agrado. Hoje tenho que ser imensa para abrigar tantas eus em mim. Sou como uma matrioshka russa.
Eu odeio quando a verdade se revela desse jeito, crua, nua, sem pudor. Até as minhas linhas escritas aos trancos e barrancos têm mais sentimento com você no meio, mesmo que sejam tristes. Com você, eu pelo menos sentia dor. É você sair de cena, e eu não sinto mais nada. Eu tenho vinte e poucos anos, mas sou uma menina de 15. Presa no passado. Refém do amor que eu juro todos os dias não mais sentir. Só que eu minto.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Chão


Eu comecei a me despedir da minha Veneza lentamente. Cada suspiro melancólico que dava no dia-a-dia, dentro do ônibus, era um pedaço de adeus. Eu recebia aquela brisa que vinha do Capibaribe e ficava me perguntando se aguentaria a dor de partir. Sempre odiei despedidas, e em mim, o apego sempre falou mais alto que um monte de outras coisas.
O futuro distante no qual estava a minha vida adulta tinha se tornado presente. Os planos que eu tinha feito pra mim viram chegar a hora de sua execução. Mas agora já não sabia se tinha coragem. Eu, que tanto quis me livrar de tudo que me prendia aqui, agora procurava motivos que me fizessem ficar. Procurava desculpas para não ir embora.
Eu queria crescer e pretendia aprender a fazer isso da forma mais brusca: ficando sozinha, num lugar estranho. Dessa forma, eu enfrentaria todos os meus medos, concentrados num aparentemente único ponto. Mas cheguei a um estágio em que meus pensamentos errantes me fizeram concluir que eu ficaria. Construiria outra vida nova sem mudar de endereço, como já havia feito antes. Percebi que se Deus me desse um amor e um bom emprego, eu não arredaria daqui. Porque não há outro chão no mundo que eu possa chamar de meu.

domingo, 10 de agosto de 2014

Cordeiro em pele de lobo



O moço é bonito que só ele. E deliciosamente perigoso. Um mistério, uma palavra não dita, um olhar que quer valer por uma frase, mas que não vale completamente, porque olhares não falam. Eles nos fazem imaginar coisas, e sempre há uma margem de erro. 
O moço quase nunca diz nada, mas quando diz, chove relevância. Me inunda com aquela voz que é de trovão mas, ainda assim, é suave. Quando estia e o sol aparece, ele se divide em raios solares e queima minha pele. Ele é o calor do verão, a imponência do inverno, o perfume da primavera. No outono, ele é a queda da folhagem, mostrando minha mudança de estação: sou mulher agora, não mais menina.
Um dia eu vou dizer pra ele o que se passa no norte, no oeste e nos países do sul. Vou dizer o que ele faz comigo, sem precisar de esforço. Vou dizer o que ele me causa, só de existir. E então, seremos como nos meus sonhos. 
Dia desses, sonhei que ele era bonzinho e nenhum de seus desvios de conduta existiam, para impedir que ficássemos juntos. Tinha a diferença de idade ainda, mas isso nunca foi empecilho. Isso é lenha na fogueira. No meu sonho, ele sabia ser de uma moça só - no caso, eu -, porque na real era um cordeiro em pele de lobo, e não o contrário. Só que na vida real, ele é mesmo meu avesso. Minha transgressão. Minha quase queda no abismo da falta de amor-próprio. Mas é quase. Porque cafajestice não me assusta, não me surpreende e nem me prega peças. Ele é uma ideia, e vai permanecer sempre ali, no campo da subjetividade.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Soltar âncoras



Eu quero as coisas mais lindas do mundo pra você. Porque eu te amo mesmo, sabe? Independente do que as pessoas pensem ou preconceituem a respeito. Eu te amei pela verdade que você passa. Me veio a verdade primeiro, depois você, com sua lista de incontáveis predicados.
Eu te amo com esse amor sereno, que sabe que se você tem asas, tem mais é que voar mesmo. Esse amor que não te quer aqui se for pra o seu sorriso ter o potencial diminuído. Seu riso tem que ser pleno. Você tem que ser pleno.
Eu te amo com esse amor que é forte, sim, não se importando com os ventos contrários. É por ser forte que ele te liberta. É por ser forte, que ele bebe todos os dias suas doses de realidade e reconhece que a renúncia é o lugar que lhe cabe. Reconhece que você merece as coisas mais lindas da vida e eu não pertenço a esse grupo de coisas belas, merecedoras de serem apontadas como causa da sua felicidade. Não sou eu que mereço menos, é você que merece mais.
Quem nasceu para ser o centro, jamais deve ser tábua de salvação. Você não merece se dedicar a derrubar meus muros e salvar minha alma. Você não merece arredores. Você merece estar alicerçado bem no meio do terreno. Você merece muito mais do que eu - por mais que te ame - posso oferecer. Meu solo está cheio de erva daninha e a última coisa que eu quero é te contaminar. Vai, e sorri. E lembra que, ao te ver sorrindo, de longe, eu vou sorrir sincero daqui, em resposta.
Vai sem culpa de me deixar pra trás. Não é por sua causa que eu tô presa aqui, neste lugar. E não é porque estou impossibilitada de ir mais longe que vou impedir o seu voo. Vai. Ao te ver partindo, eu não tô triste, não. Eu tô é leve.



terça-feira, 10 de junho de 2014

Dopo il parco giochi: a sirene


São 22h32 de uma terça-feira e eu deveria mesmo dormir. Porque dormi pouco na noite passada. Porque quarta-feira é um dia útil, e eu trabalho. Porque, porque, porque. Mas estava lendo um livro e resolvi escrever sobre como eu deveria estar dormindo agora, e não estou. Sobre como eu poderia estar trabalhando no meu projeto freelancer agora, mas não estou. Sobre como minha vida poderia ser diferente, mas não é. Sobre como eu deveria ter escolhido outra coisa que não Jornalismo pra profissão, mas escolhi. Sobre como esse texto deveria não ser sobre você, mas é. Sobre como eu não deveria me apaixonar, mas acho que levei uma rasteira. Sabe como é, prefiro dizer que estou levando uma rasteira, estou em vias de cair, do que me dizer apaixonada. Eu não me apaixono, afinal de contas. Não mais.

"Garota linda, de cabelo curto, rejeita a autoridade e não consegue resistir a um cara que ela sabe que vai ser um problema."
Tirando obviamente o "linda", essas palavras do livro que estou lendo quase falam de mim. E digo quase porque eu tinha desistido de você, sabe? Eu sempre soube que você não prestava. Eu tirei você da cabeça, porque aceitei sua completa babaquice e outros fatores me deram distração. Mas foi quando eu desisti, que baixei a guarda sem perceber. E foi quando eu baixei a guarda, por simplesmente não me importar mais, que a gente se aproximou como pessoas normais, que convivem uma com outra, fazem. E agora quem vê de fora pode até chutar que a gente é amigo. Eu diria que não chega a tanto. Mas devo admitir que me troco e me relaciono e me vivo com você muito mais do que com outra meia-dúzia de pessoas que também estão enquadradas no nosso contexto. Escrevi esse último pedaço sem vírgulas de propósito, porque o pensamento está me ocorrendo assim, sem pausas. A gente é quase amigo e começou tudo de novo dentro de mim porque eu dei a merda de uma pausa no assunto "me-sentir-muito-atraída-por-você". A culpa é do intervalo. No fim, foi feito um atleta recuando para pegar impulso, um doente terminal e a sua "melhora da morte". As coisas encontram seu lugar só para se embaralharem depois, de uma maneira ainda mais complicada. Quando a sirene avisa o fim do recreio, a aula que segue sempre parece mais difícil.

Continua...



terça-feira, 25 de março de 2014

Antonius



Não é verdade isso, que deveríamos ser melhores amigos? Um dia, acho que fomos. Mas isso já faz muito tempo. Como quase tudo de memorável na minha vida, eu tinha dez anos. Nossa cumplicidade caiu em algum dos 365 dias do ano de 2002 - que eu nem lembro se foi ou não bissexto -. Ela caiu e ficou lá.
Desde então eu vivi pra esperar que você se importasse. Esperar que você viesse e entrasse em sintonia comigo. Esperar que você fosse o herói no qual eu acreditei durante os meus dez primeiros anos de vida. O herói no qual eu me enrosquei todas as noites, quando era menina, pra tirar o primeiro cochilo antes de ir pra minha cama, porque debaixo da sua asa era mais seguro. Mas deixou de ser. Não por falta de segurança, mas pela sua asa que se fez ausente. Por você, que se fez todo ausente. Que depois voltou, de corpo presente, mas nunca mais voltou de verdade. Nunca mais foi inteiro.
Diante de tudo, me pergunto... A gente se conheceu algum dia? Você realmente acha que sabe quem eu sou? Por que o longe se faz alento, quando devia ser tortura? 
Esta sou eu, querendo te amar À distância, pra preservar alguma beleza que ainda resta. Pra conseguir não deixar de te amar. Pra te fazer ainda valioso e inestimável, em algum lugar dentro de mim.


terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

La mia ricchezza distanza


Passei a sentir uma dor emocional latejante desde que você se foi. Ela é intensa, mas suportável. Se não o fosse, eu já teria morrido ou algo assim, dada a constância com que ela me ataca. Sempre que me distraio, lá está ela, querendo me fazer em pedaços e quase conseguindo. Mas não é nada. Repito para mim que deve ser só TPM. Só que desde que você saiu do meu campo de visão, tenho tido pelo menos uma TPM por dia. Mas eu ainda sou uma mulher normal, que menstrua uma vez no mês. Acho. Só não sei se sou uma mulher inteira, depois que me arrancaram dos seus braços e separaram a gente.
Eu sabia que depois de tanto te ter por perto, quando você fosse finalmente embora, eu ia ficar mal acostumada e na merda. Só não estava preparada pra ficar tão na merda assim. Você sabe o que fez comigo? Não sabe. Nunca vai saber. Mas você me fez te amar. Você me fez venerar a sua idiotice. Assim, de graça. Chegou de mansinho e pronto, se proliferou. De grão em grão, virou um milharal no meu terreno. E eu nem ligo pro quão ridículo esse trocadilho possa parecer. Só algo assim é capaz de expressar o quanto essa coisa aqui dentro de mim é totalmente ridícula e sem sentido.
Às vezes eu sinto um frio na barriga enlouquecedor, como se a qualquer momento você fosse dobrar a esquina, tocar minha campainha, sorrir pra mim daquele jeito, se hospedar na minha rotina outra vez. O coração quer pular pela boca, mas no fundo ele sabe que você não vai vir tão cedo. E quando vier, talvez nem lembre de mim. Talvez nem lembre da gente. Mas meu coração é burro e insiste em me esmurrar por dentro do peito, num gesto de extrema alegria, toda vez que sua imagem cruza meu pensamento de forma despretensiosa. É o jeito que ele tem de demonstrar que está guardado dentro da minha caixa torácica por uma questão biológica, mas que o dono dele mesmo é você. Tenho um cãozinho amestrado no peito, que só obedece ao adestrador. 
É torturante. Mas em meio a toda essa agonia, não deixo de reconhecer a doçura que invade de vez em quando. Você vale mais que um jatinho particular, uma conta bancária recheada no exterior, um perfume importado, um anel de brilhantes. Minha maior riqueza sentimental. Sonho acima de qualquer consumo. Você é minha ilha particular, terra firme capaz de impedir que eu, embarcação, naufrague no meio do oceano. O que me dói é que eu não tenho bússola.


domingo, 2 de fevereiro de 2014

Desperta a dor


Dá licença, mundo, hoje eu tô querendo sonhar. Amanheci com preguiça da realidade. Você só tem me dado amarguras e aqui dentro da minha cabeça eu encontrei coisas doces. Encontrei ele, doçura personificada. Já pensou se eu e ele... Não? Eu já. Pera, que já te conto.
Depois de muito olhar em volta, admirando aqueles quadros, que pareceram mais bonitos depois de terem tocado a retina dele, eu me poria de pé. Embriagada pelo cheiro característico daquele lugar - que eu sinto como sendo o cheiro dele, só porque já esteve em suas narinas -, eu iria embora. Eu, guturalmente apaixonada pela minha terra, família e amigos, cultuadora do apego, apego, apego, apego, apego e das raízes fincadas, desapegaria. Desenraizaria. E me fincaria em qualquer terra, daqui ou de marte, desde que ele também estivesse plantado por lá. De vez em quando eu ia chorar de saudade de casa, mas ele me consolaria fazendo amor e tudo ficaria bem.
As tardes de sábado seriam menos enfadonhas, porque depois de algumas horas no quarto dele, namorando, cantando e compondo, a gente iria ao cinema, a um bar, ou aos dois. E a gente falaria de vida e de música e faria mil planos, porque teríamos a vida inteira - com música - pela frente juntos. No bar, com ele sentado ao meu lado, eu pediria ao garçom a cerveja mais gelada pro homem da minha vida (homem-da-minha-vida soa muito melhor que homem-dos-meus-sonhos, título que ele tem atualmente). E nada em volta importaria, porque eu estaria sentada ao lado dele, enchendo de cheiros o seu cangote, inalando o seu perfume, misturado com suor e cerveja: melhor aroma do mundo. Como uma boa filha arretada de Seu Pernambuco, eu ia esquentar ele todo por dentro.
Lá pras tantas a gente sairia dali para o meu apartamento e bêbado, ele ia querer deitar do jeito que tinha chegado. Mas eu ia protestar dizendo que ele tava sujo e eu mesma lhe daria um banho. Faria cafuné na cabeça dele, enrolando meus dedos nos seus cachos, em meio à espuma do shampoo. E eu, que sempre achei lindo homens de cabelo escorridinho, cara lisa e peito também, me pegaria venerando tanto aqueles cachos, pelos e barba, que acharia a vida uma ironia completa.
Do chuveiro, a gente se rebocaria mutuamente pra minha cama. Depois do banho, ele estaria desperto e ia me querer. E como eu quero ele sempre, a todos os instantes, a gente se amaria. Enquanto os raios de sol invadiriam meu quarto, anunciando o amanhecer, ele invadiria meu interior, anunciando o amor. Aí quando o cansaço enfim chegasse, a gente ia dormir abraçado e as batidas do coração dele seriam minha canção de ninar.
Passados um ano ou dois dessa rotina doce, a gente estaria junto duma vez. E nem ia precisar de casamento na igreja ou festa, como eu sempre sonhei, porque ele é o meu sonho maior. Eu não o vejo engomadinho, esperando por mim num altar. Não combina com o jeito despojado que ele tem. E eu não mudaria absolutamente nada nele. 
Mais alguns anos, viriam nossos filhos de cabelos pretos feito ébano. Um menino, uma menina. A gente tatuaria os nomes deles. Ele, com a minha letra e eu, com a dele. Porque eles seriam os melhores presentes que daríamos um ao outro, numa vida toda. 

- Já deu a minha hora de acordar? Não, espera... Só mais cinco minutinhos.



terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Amor de bus


Corri pra pegar o ônibus e quase que o perdia. Estava lotado. Assim que passei pela catraca, o avistei. Não pude mais tirar os olhos dele. Dei graças a Deus quando fui me locomovendo pelo corredor e o moço que estava sentado ao lado dele acenou para mim, me dando o seu lugar, porque desceria na próxima parada. Destino, quem sabe.
Ele estava com o cabelo meio bagunçado, uma camisa social clara, por fora da calça jeans surrada e com as mangas dobradas na altura dos cotovelos. Era um tipo engomadinho quase despojado, ou um tipo largado tentando ser arrumadinho. Não sei ao certo. Mas era encantador. Ah, se era. Trazia o cheiro do perfume masculino que eu mais gostava, misturado ao cheiro da própria pele, formando um aroma especial. Muito provavelmente eu não estava perto dele o bastante para fazer uma constatação desse tipo, minha imaginação aguçada deve ter me ajudado.
E eis que o fato encontrou sua consumação quando reparei que dos seus fones de ouvido vazava a voz de Elis Regina. Só poderia mesmo ser um sinal: ele gostava da minha cantora preferida. Encontrei o homem da minha vida num dia qualquer, dentro de um ônibus que eu costumava pegar todos os dias, nos mesmos bat-local e hora.
Terminamos nos casando. Tendo três filhos e um cachorro. Passando todas as tardes de sábado do resto das nossas vidas no parque. Tocando violão e cantando músicas de Elis aos domingos. Compondo dezenas de rocks rurais. Plantando nossos amigos, discos e livros e nada mais. Não necessariamente numa casa no campo.
Mas nossa vida inteira juntos não durou mais que cinco minutos. Ele levantou, puxou a cordinha, pediu parada e desceu no ponto seguinte. Pedi o divórcio no ato. Nunca mais vi meu ex-marido. Nem sei como se chamava.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Ébano



Oi. Tô te ligando só pra dizer que tem cerveja aqui na minha geladeira e eu sempre achei deprimente demais beber sozinha. Olha, eu sei que já deve estar tarde no seu relógio, porque o meu já está marcando uma e trinta e sete, e é da manhã. Mas eu queria que você soubesse que ainda pode ser cedo na vida, pra gente, é só você querer. E eu tenho latas de cerveja na geladeira. Se eu tô bêbada? Só se for da sua ausência. O único porre que tenho tomado é do lugar vazio que você deixou, menino. Eu brindei o amor e você foi embora antes que eu sorvesse todo o líquido da taça. Eu não te bebi até o fim, você não tinha o direito de me deixar ainda.
Ei, por favor, volta. Eu tenho cerveja da marca que você gosta, e posso comprar cigarros pra você na banca da esquina também. Não tenho problema em voltar a ser fumante passiva outra vez. Que se dane minha bronquite alérgica. Prefiro ter pulmões fodidos do que um coração na merda. Tossindo eu não posso cantar? É. Mas eu não quero cantar sem você aqui, porque sem instrumento me acompanhando eu perco tom, e eu não sei tocar nada. Exceto você. Em você eu sei tocar como ninguém, você sabe. Sei de cor cada acorde sem vergonha do seu corpo. A gente devia esquecer essa nossa pausa, inventar um arranjo novo, quem sabe.
Não, eu não tô chorando. Tô chorando. Tô desesperada, porque sinto a sua falta. Não me venha dizer que eu sou uma pessoa maravilhosa, você não está aqui para ver como eu fico um saco sem você por perto. Nem eu posso comigo. Não é que eu não goste de mim. Eu me gosto, sim, mas gosto mais da gente. Talvez a única coisa que eu goste em mim seja a cor dos meus cabelos. Você já reparou como é difícil encontrar gente de cabelo - não castanho escuro - mas preto feito ébano, sem ser pintado? E a cor do seu cabelo é igual à cor do meu. A gente pode ter filhos de cabelo preto, e eu sempre tive compulsão por filhos morenos. Um bom motivo pra você voltar. Já tentei dormir, não consigo. Você já me causou insônia antes, só que foi de felicidade. Agora eu já não sei.
Olha, que coincidência! Tenho cerveja na geladeira! E tenho cerveja preta também. Preta que nem o meu violão que tá ali largado, sem você pra me ensinar a tocar nele. Preta feito a noite que é mais longa na minha cama vazia. Preta que nem o meu cabelo e o seu, e os nossos olhos também. E os olhos e cabeleiras dos nossos filhos, que vamos compor com músicas, se você voltar. Diz que volta. Tenho cerveja aqui, pra todos os gostos. E tenho eu, pra todos os gostos e quereres que forem seus. Se você quiser o mundo, eu boto ele todo dentro desse apartamento agora. Você não precisa trazer nada, além de carinho e você, pro nosso edredom.


quinta-feira, 23 de janeiro de 2014


Sete anos depois eu finalmente percebi que talvez nunca tenha sido amor, de fato. Das coisas que me lembro sobre o que eu sentia por você, a certeza que me bate mais forte é de que eu rezava. Todos os dias. Religiosamente e tendo o coração o mais contrito possível. Eis o lado bom do meu desfortúnio: me levou a Deus. Não porque eu precisava pedir que Deus te trouxesse para mim, mas porque eu precisava dizer a Ele o quanto eu te amava e o quanto eu te queria feliz. Nas minhas orações, nunca era eu. Era você primeiro.
A partir daí, todo aquele meu altruísmo tem explicação. Amor que se doa até a dor, até depois da dor. E cada vez que você me humilhava, eu resistia. I Coríntios 13 era o meu lema. "Crer. Suportar. Esperar". Não se tratava mais do amor que eu sentia, mas da minha fé cega, que me fazia acreditar que nada importava, um dia, seríamos um. Eu tinha fé nisso. Eu tinha fé que Deus faria isso, que isso era a vontade d'Ele. Era uma fé cega num Deus que - graças a Deus - decidiu que eu ficaria melhor sem você. E estou melhor. Até hoje.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Sonho



- Sem sono?
- É. Não consigo dormir. Acho que é medo.
- Medo de que, exatamente?

Foi quando comecei a te falar do meu medo de dormir, e acordar de nós dois. De fechar os olhos e abrir outros olhos e não mais te ver. Dormir naquele instante e de repente ter meu velho travesseiro de pena de ganso sob a cabeça. Não leve a mal, eu amo meu travesseiro de pena de ganso, mas amo mais o seu peito sendo meu travesseiro. Porque ele é seu. Porque ele faz com que sua respiração e seus batimentos cardíacos sejam minha canção de ninar. Nada poderia me fazer dormir melhor e é justo por isso que eu não consigo pregar o olho. Porque morro de medo de ouvir meu despertador me chamando pra vida real.

- Morro de medo de acordar da gente quando eu for dormir.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Chá



Tem dias que eu acordo me doendo. Hoje foi um desses dias. Minha avó me ofereceu um chá de camomila, dizendo que apesar de não resolver, podia me ajudar com a minha dor de amor. E eu nem tinha dito nada sobre o que estava sentindo, mas devia estar escrito na minha testa, já que ela percebeu. Ela me serviu naquela louça fina da família, que eu herdaria um dia e onde pretendia servir bolo e chocolate quente aos nossos filhos, quando o inverno castigasse demais na sua cidade.
Naquele momento eu continuei sem dizer nada à minha avó, nem sobre o que estava sentindo, nem sobre coisa nenhuma. Fiquei ali apática, assistindo o chá esfriar, vendo a fumaça sumir na atmosfera da cozinha, o vapor virar gotículas, suando a borda da caneca. Fiquei vendo o açúcar se depositar no fundo da xícara, feito eu, amargando no fundo do meu poço. Fiquei sentada na cabeceira da mesa, pagando a minha conta.
É difícil lidar com uma dor que lateja no peito e irradia para os cotovelos, passeia pelo corpo todo, e muda de lugar tão rápido, que não te deixa perceber ao certo onde é que dói. Fazia frio em pleno verão nordestino. Um frio que vinha de mim. Eu só fazia piscar automaticamente os olhos, à medida que poças d'água se formavam neles. Eu batia minhas pálpebras uma na outra, pra escoar a água da minha chuva interna, se empoçando nas minhas calhas. Mas nem o processo de chover de dentro pra fora poderia me lavar dessa sujeira toda. Amor parado apodrece.
Vovó me diagnosticou com infecção passional. Disse que quando era moça, também teve seus momentos ruins. Pensei em explicar para ela o tamanho da minha desfortuna, quando sua doçura desgraçada atingiu o paladar da minha alma. Mas ela não entenderia. Ninguém que não te visse com os meus olhos entenderia. Ninguém além da gente entende, quando amar dói assim. Se eu tentasse falar, vovó ia me dizer que passa e eu não ia acreditar, embora já tenha passado outras vezes. 
Por fim, enxuguei as lágrimas com as costas das mãos e disse à minha avó que tudo que eu mais queria era só ser uma pessoa normal, dessas que amam, são amadas, comem, respiram e vivem. Ela me deu um beijo amoroso na testa, com cara de gente velha que conhece todas as esquinas da juventude, e estava me vendo sem nenhum glamour, com o salto agulha preso num bueiro entre a Tomázia e a Vigário Tenório. Burra, presa às minhas pedras. "Suas asas não são só enfeite. É hora de aprender a voar. Vá para o sul deste encanto, ou para o sudeste que melhor lhe couber", foi o que ela falou. Tenho dúvidas se nessa vida ainda descubro o que ela quis dizer. Antes do último gole de chá, percebi que nunca soube possuir asas.