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domingo, 29 de janeiro de 2012

A dor do nunca

Fui nocauteada pela força de um rinoceronte. Mas não vou chorar, não. Seria infantilidade chorar pela falta de uma coisa que, mesmo antes de se começar a querer, se sabia que não teria nunca. Quando o anjo e o demônio (que pairam cada um sobre um ombro meu) me sussurraram que eu queria, já era do meu conhecimento que não dava pé. Alimentei o mergulho em busca de distração, querendo ter nas veias a adrenalina que há muito me faltava na vida. Mas não sei nadar. Me afoguei.
Cansada de ser inerte, resolvi brincar. Agora sei que quando brinco é quando mais saio machucada. Sou como uma criança travessa, que não consegue sair para brincar na rua e voltar ilesa: tenho que levar de prêmio ao menos um joelho esfolado. De uma forma ou de outra, o sangue acaba escorrendo, porque sempre tem que ter dor. Me odeio ao perceber que involuntariamente eu procuro por isso.
Quando não havia mais onde buscar algo pelo que sofrer, fui procurar o sofrimento mais absurdo e insano. Agora tenho um homem cantando dentro da minha cabeça, e a sua voz faz um líquido salgado me escorrer dos olhos, acariciando minha face. Sei que eu disse que era infantil chorar, mas não há como guardar esse mar todo em mim. E não pense que choro de inveja, ou por almejar uma vida que não é minha. Meu único fracasso é esse dom desgraçado de não conseguir querer aquilo que minhas mãos alcançam. É essa pesada virtude de ter que me doer para me viver plena.

domingo, 9 de outubro de 2011

Só, fria

Perdição. Era assim que ela o definia em pensamento. Ele era um desvio no caminho que ela meticulosamente havia traçado para si. Ele cheirava a veneno e tinha jeito de pecado. Ele era o crime que ela queria cometer.
Não bastasse ser bonito, era também sedutor. Exercia o mesmo ofício de seu grande amor de adolescência, que já havia ficado para trás. E seu ex-amor virou passado por não ter maturidade. Mas aquele rapaz, de agora, tinha ares de experiência que lhe potencializavam a sedução. Talvez ele fosse o seu amor antigo com mais 17 anos no RG e 25 na cabeça.
Mas não era amor. Fazia as mãos gelarem, o coração pulsar com força, o sangue esquentar e corar seu rosto. E também não era paixão. Não era sentimento, era carne; não era emocional, era físico.
No entanto, é válido lembrar que ela foi ferida e agora tem medo de se apaixonar pela própria sombra. Ela poderia perfeitamente o estar amando, mas deve ter bloqueado o sentimentalismo todo da coisa: escolheu somente o êxtase. Amor é doce, e doce demais dá sede. E é aí que a gente chora para beber das próprias lágrimas. Além disso, açúcar em excesso termina por amargar na boca. Ela, que já tinha provado da sede e do amargor, escolhia só o cítrico, o veneno... E gostava. E não sofria. Só e fria.