Marcadores

domingo, 16 de novembro de 2014

Amor gramatical

Eu não soube que era você por causa do sorriso torto ou da voz sedutora. Não foi a sua facilidade em ser um homem naturalmente atraente que me fez perceber que era você, e não qualquer outro. Não foi por causa da minha crescente confusão quando estou ao seu lado que eu soube. Não foi a síncope cada vez que você telefona. Não foi o frio na barriga ou o coração acelerado que me disseram que era você o cara, e não qualquer outro neste mundo. Poderia ser qualquer um: meu vizinho, o carteiro, o cara que pega o mesmo ônibus que eu todas as manhãs, Seu Manoel da padaria. Podia ser qualquer um, mas é você. Todo torto, todo errado, todo minuciosamente traçado e pensado pra mim.
Eu soube, quando dentre todas as suas falhas, relevei principalmente o seu português ruim. O não saber conjugar o verbo “vir”, em qualquer outro ser humano, me irritaria profundamente. Me irritar mais do que isso, só o fato de você parecer ignorar que o verbo viajar é com j, mas viagem, o substantivo, é com g. E quer saber? Eu não me importo. Porque a gramática é ruim, mas o papo tão bom!
Eu costumo perder amigos e não as correções ortográficas. Mas deixo passar os seus deslizes gramaticais todos, porque me recuso a perder você. E, acredite, em se tratando de mim, fingir não reparar na ausência de coesão da sua escrita é uma grande prova de amor.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Fica

Eu ando com síndrome do pânico ao ver o telefone tocar. Ao ver mesmo, não ouvir. É que meu celular acende os ícones do display quando vai tocar, antes de tocar. E aí pronto: basta ver aquelas luzinhas brancas que meu coração dá saltos mortais pra ginasta olímpica nenhuma botar defeito. Até que acende a tela toda e aparece um nome qualquer na bina, que não é o seu. Semi-síncope em vão. Tenho tido isso recorrentemente e assim têm sido os meus dias.
Tudo porque você disse que me amava. Mas você fez questão de dizer que me amava tanto, mas tanto, que sabia que eu merecia muito mais. Você disse que deseja pra mim que eu seja muito mais feliz do que você pode me fazer. Me falou do amor, inundado de consciência, que sabe que eu mereço mais. E eu fiquei aqui no meu canto, querendo que meu merecimento minguasse, só pra você caber como uma luva nele, sem folgas, sem espaços vazios.
Aí foi quando você começou a falar que eu me conformo fácil com as coisas e que preciso aprender a olhar pra dentro, reconhecer o meu valor. Eu preciso de alguém que acabe com essa minha mania feia de me contentar com migalhas, como se fossem suficientes, como se fossem o bastante. Não são.
Você fala de mim como se eu fosse uma pessoa tão bonita e boa, e fica tão zangado por eu não concordar, que chega quase a me convencer de me amar mais. É a condição pra você ficar? Se eu gostar mais de mim, você vai se sentir melhor para me dar esse amor que tem aí no peito? Esse amor, que você diz que é pouco, mas que é o amor que eu quero. Não se trata de merecimento. Se eu amar a mim mesma como você me ama, você me deixa te dar todo esse meu amor pra você em troca?

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Finale


Não vai ficar tudo bem. Já está. E não é falso otimismo ou algo que eu digo para você não se sentir de mal. Está tudo bem mesmo. Não ferimos um ao outro e eu acho isso a coisa mais linda do mundo. A serenidade e a leveza com que soubemos adular nossa fogueira de chamas altas é a minha melhor lembrança. Fomos completos enquanto duas pessoas formando uma só coisa. Fomos intensos e calmos, fomos desesperados um pelo outro. Mas fomos simples. Nos respeitamos. Fomos curtos e breves, mas valemos a pena.
Fazia muito tempo que pra mim, essa coisa, o amor, não valia tanto a pena. O fim não é mais um drama. Rola uma lágrima pelo rosto, dá saudade. Mas a vida muda, nós mudamos, e não precisamos fazer disso uma crise. Terminamos, mas cumprimos nossa missão de sermos luz um na vida do outro. Foi tudo delicioso, extasiante, e que bom que nós dois acontecemos. Que bom que nossa história existiu.
Esta é uma sensação nova e estranha, mas absolutamente agradável: pela primeira vez, eu não perdi um amor. Eu ganhei uma história linda pra contar pro resto da vida. Obrigada por esta experiência que eu nunca havia vivido antes. É a primeira vez que há carinho e ternura, depois do amor. Obrigada por curar um coração que andava tão desacreditado da beleza das coisas. Obrigada por me resgatar. Podemos seguir em frente agora, mesmo que separados. E, quem sabe, nossas vidas ainda possam se cruzar por aí.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Manifesto pelo direito de quebrar a cara


Caçula. Menina. Super-protegida. Quando eu era pequena, tinha uma "merió amiga", que além de estudar comigo na escola, era minha vizinha. Duda, o nome dela. Duda era virada. Eu, quietinha até demais. Duda descia as escadas do prédio pulando de dois em dois degraus, às vezes mais. Eu descia devagarzinho, de ladinho, segurando na parede, por falta de corre-mão. Degrau por degrau. Uma velhinha de 95 anos habitando o corpinho de uma menininha de 2 ou 3. Nas aulas de natação, Duda subia o trampolim quando a professora não tava olhando e tchibum na piscina. Eu tinha medo de me livrar das boias na piscina funda, e não desgrudava da borda. Terminei trocando as aulas de natação pela ginástica rítmica: a terra firme era mais segura. Nunca aprendi a nadar, assim como nunca aprendi a andar de bicicleta. E passei boa parte da vida numa bolha que me foi imposta. Mas eu não me queixava. Nunca fui de reclamar das coisas, e como não sabia como era a vida fora daquele sistema protetor, não me fazia falta. Me fazia era fraca, e eu não me dava conta.
Eu tive a melhor mãe do mundo. Mesmo. Não é só questão de força de expressão. Cada um que ache a sua mãe a melhor, eu sei. Mas a minha mãe, meu caro... Você não tá me entendendo. Ela possuía o coração mais bondoso, era a pessoa mais generosa que já conheci. Só que em tudo tem um porém. Hoje, com um pouco mais de idade e um pouco menos de mundo fantástico na cabeça, sei que minha mãe me achava frágil. E eu era, só que me manter guardada debaixo de suas asas, ao contrário do que ela parecia pensar, não era algo que me ajudasse objetivamente. Já viu bicho criado em cativeiro conseguir se virar na mata? Pois é. O pensamento é por aí. 
Por esses dias eu tava pensando nas viagens do colégio que deixei de ir. Minha mãe tinha medo que eu, bobinha, fosse influenciada pelos adolescentes rebeldes que me cercavam e fizesse coisas que não fossem legais. Ela era professora, sabia bem o tipo de marmota que os alunos aprontavam nessas viagens... "Pedagógicas". Mas eu era tão bobinha, mas tão bobinha... Que era boa demais! Ela não podia imaginar, mas o motivo pelo qual ela não me deixava ir, era o mesmo pelo qual deveria me dar permissão. Não importava se ela não estava olhando. Qualquer coisa que eu fizesse, e que a desagradasse, me faria sofrer muito. Eu tinha uma consciência grande demais para uma garota daquela faixa etária e, qualquer passinho fora da linha, essa mesma consciência me pesava toneladas. Na minha vida escolar, por exemplo, eu tirei muita nota vermelha nas matérias de exatas. Era filha de um contador, mas não tinha habilidade com os números. Foram as palavras, herdadas da minha mãe professora de Português, que me fisgaram desde sempre. Eu poderia até começar a falar sobre quão emocionante foi o momento que descobri que sabia ler. Mas esta é uma outra história. Voltemos: os números e minha falta de aptidão para lidar com eles. Eu sofria profundamente pelas minhas notas vermelhas. Mas sofria mesmo. Muito. Me achava uma pessoa horrível. Era uma auto-tortura psicológica meio pesada. Até o dia em que, nos últimos meses de vida escolar, no meio dos meus dramas mexicanos, uma professora me aconselhou: "Pare de se preocupar tanto. A sua vida é tão mais que isso! Tem um mundo lá fora da escola, e quando isso aqui passar, você vai olhar pra trás e vai ver como tudo aqui é tão pequeno". Aquela fala ocasionou o começo do estalo que me levou à estrada que me fez quem eu sou hoje. E eu não parei de andar. Nem pretendo.
Fiz esse arrodeio todo, resgatando dilemas antigos, só para deixar claro que este texto é um manifesto pelo meu direito de quebrar a cara. Nós, pessoas super-protegidas desde o seio materno, desde o seio familiar, escolar e etc, temos o pleno direito de quebrarmos a cara. Sabe quando eu comecei a crescer? Quando dei de cara no chão, sem ninguém para me segurar, me amortecer a queda ou me por de pé outra vez. Foi quando eu aprendi que em alguns momentos a vida dói mesmo, é natural, e que a dor não precisa ser inimiga. Ela é sinal de que se está vivo e, por sua vez, estar vivo é uma vitória imensa, e um ótimo motivo para arranjar um jeito de se levantar. Um brinde ao ato educativo de se quebrar a cara!
Me manifesto pelo meu direito de me arriscar, de querer coisas que têm 50% de chance de dar certo. Brigo pelo meu direito de dobrar aquela esquina sem GPS para me mostrar se aquela rua é uma alameda ou um beco escuro sem saída. Quero viver essa coisa de escolher a avenida principal ou cortar caminho por uma paralela, sem saber qual das duas opções está engarrafada. Engarrafamento às vezes é bom pra gente pensar. Eu vou gritar pelo meu direito de querer o que eu quero hoje, mesmo sabendo que pode dar errado, só porque a probabilidade de dar certo existe, mesmo que ela seja menor. Eu enfrento a Terceira Guerra Mundial pelo direito de ter exatamente os desejos que eu tenho, porque a vida é pelo menos três coisas: minha, única e curta! Curta demais para viver pisando em ovos. Eu quero pisar firme, sem saber se debaixo dos meus pés tem solo fértil ou areia movediça. Eu quero arriscar, porque eu tenho esse direito. Se não rolar, existem outros caminhos, outras quedas, outras lições. Nenhuma escolha é vazia. 
O mundo pode continuar me achando frágil. Mas olha, mundo, vou te falar uma coisa: eu aguento. Eu estou viva, portanto, aguento perfeitamente essa viagem louca, dolorosa, frustrante, excitante e linda que é viver. Porque se eu não aguentasse, eu simplesmente não estaria aqui.


terça-feira, 7 de outubro de 2014

Poeminha fora de hora



Eu vou diminuir
Ir para o norte
Esperar que a sorte
Venha me buscar

Não foi culpa minha
Não foi culpa sua
Não foi culpa nossa
Eu me apaixonar

Te faço um verso
Simples, claro
E atesto
Aqui não era bem o meu lugar

Vou lembrar da gente
Te levar na mente
A pele esquenta
Só de imaginar

Vai e nem comenta
Vê se te orienta
Vou seguir meu prumo
Me jogar no mar

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Oi, Passado. Eu vim te visitar.


Hoje, depois de cinco longos anos, eu estive no colégio onde estudei a vida inteira. Num segundo, parece que foi ontem que saí de lá. No segundo seguinte, parece que o tempo se perdeu, porque eu nem sequer sou a mesma pessoa que deu as costas àqueles muros, um dia. Isso só me leva à conclusão de que a vida é muito doida. Graças a Deus!
Quanta história paredes podem conter? Como ambientes, cores, formas, cheiros e sons podem mexer tanto com nossas mentes, nossos sentimentos? Pensando sobre como 15 dos meus 22 anos eu vivi ali, tive que analisar tudo de um modo mais amplo. Passei mais tempo da vida lá dentro, do que aqui fora. No entanto, depois que concluí o Ensino Médio, mudei muito mais do que nos 15 anos de colégio juntos. Essa transição de adolescência para a vida adulta parece ser a mais significativa. A gente vira do avesso. Mas nem sei se é assim pra todo mundo. Pra mim, foi.
Ver aquela fachada cinco anos, alguns cortes de cabelo, um piercing, quatro tatuagens e um diploma de Jornalismo depois, foi, no mínimo, curioso. Foi como me olhar por dentro. Foi olhar pra trás e, numa fração de segundo, reconstruir toda a rota que tracei até aqui. Definitivamente, eu não sou mais a menina que cruzou aqueles portões com a ficha 19 nas mãos.
Tanta coisa parece fazer mais sentido agora, e tantas outras perderam o sentido, se tornaram grãozinhos de areia no parquinho do pré-escolar. Segredos que já nem valem de nada devem ter ficados enterrados do ladinho do caramanchão. E quem diria que eu, cantorinha que todo recreio batia ponto no "palquinho" de madeira (que na verdade era uma ponte, sem rio passando por baixo), subiria em palcos de verdade, de gente grande? E os intervalos em que eu abdicava do lanche, só pra poder passar 20 minutos dentro do estúdio da rádio do colégio? Uau! Sabe meu diploma de Jornalismo? Consegui concluindo o curso com um projeto experimental em... Rádio. Talvez eu não tenha me dado conta o quão "de antes" vêm meus prazeres e aptidões atuais. 
Hoje, apesar de tão mudada, reconheço em mim pedaços do que eu era, apesar de não ser mais. Porque tudo que sou hoje começou lá, de onde eu vim.



segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Sonhei que você me lia


Dia desses sonhei que você me lia aqui. E o mais incrível de tudo é que você me lia e entendia todas as minhas entrelinhas. Me descobria por trás de todas as minhas máscaras. Você lia meus escritos piegas, chatos, revoltados, doces... Sabia quando cada um era pra você e sabia cada um dos motivos, dos momentos. Aí a partir desse sonho, resolvi escrever imaginando que você me lê de fato.
Se você me lê, se reconheça como vocativo deste texto, como no meu sonho. E saiba que o que você faz comigo, há anos ninguém me faz. Eu tento todos os dias ignorar. Deus, como eu tento! Às vezes tenho sucesso por uns tempos, mas nem sempre. E mesmo que tenha, não adianta muito. Você volta. Você e sua imponência voltam e derrubam todos os meus argumentos meticulosamente ensaiados, que comumente tentam convencer a mim mesma de que não é nada demais isto aqui pulando dentro do peito. Coração, sabe? É, eu ainda tenho um. Um que funciona, ao contrário do que eu pensava. E dessa vez, eu não vou tomar betabloqueadores, como quando eu era menina, porque sei exatamente qual o meu diagnóstico. Não tem nada a ver com prolapso valvar mitral.
Eu queria ter capacidade de soltar tudo que está preso em mim, e despejar tudo de uma vez, antes que o súbito de coragem passasse. Eu queria conseguir te olhar nos olhos por um tempo que fosse suficiente pra você entender. Mas eu sempre provoco desvios. Fujo. Corro porque amar dói. E ao mesmo tempo, eu não queria estar aqui te falando de amor, como uma completa idiota, mas é que eu realmente não sei o que mais isso pode ser. Vamos usar esta palavra - amor - por falta de alguma outra mais apropriada. Eu poderia falar de paixão, mas ela é só fogo e tem prazo de validade. Você ainda não se estragou, mesmo depois de tanto tempo guardado na última gaveta da minha geladeira. E você já não é mais só fogo: você é fogo, brisa, perfume. Você já virou pacote completo. E isso dá medo.
Não precisa nem levar tão a sério as coisas que eu escrevo aqui, porque eu nunca revelo por completo o que é real ou fantasia. Mas, olha, eu gosto de você pra caramba. No começo era mesmo só isso de atração fatal e querer por querer. Um querer só, solto no mundo, sem razões ou outras coisas agregativas. O querer existe ainda, mas acompanhado. E acompanhado por um monte de coisa linda e boa que você me causa que, como eu já disse, há anos ninguém causava a mim. Desculpa jogar em você tanta coisa confusa ao mesmo tempo, mas é que realmente... (pausa)

- Neste momento, a Autora é calada com um beijo dele, o Vocativo. Como se falasse e não escrevesse. Como se ele, ouvindo suas palavras, pudesse ler de forma não caligrafada: ouvindo, ele lia a alma dela. Beijando, virava co-autor da vida que não é dele. Mas que depois do beijo, passaria a ser. E viriam outros beijos, depois. E outras tantas coisas mais.