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sábado, 21 de dezembro de 2013

Altruísta? Egoísta!


Queria conseguir mensurar o quão idiota eu me torno, ao colocar seu nome diariamente nas minhas preces noturnas. Ou melhor, não queria, não. Acho que que eu teria muita vergonha de mim, ficaria constrangida na minha própria presença. É muita falta de bom senso.
Pelo amor de Deus, onde já se viu? Eu, colecionadora de fragilidades, portando todo esse instinto protetor? É dose, mas não sei amar de outro jeito. E estando você fora do alcance dos meus cuidados, eu rezo. Converso com seu anjo da guarda, bato altos papos com ele de madrugada, como se tivesse esse direito. O meu anjo fica até com ciúme, mas é que acho mesmo o diálogo com o seu guardião mais divertido. Porque tem você no meio. Porque envolve a forma como você ri, dorme, acorda e vive. E você é bem melhor do que eu. Eu não tenho graça nenhuma, e meu anjo só sabe falar de mim.
Todas as noites, ao encostar a cabeça no travesseiro, me imagino abraçando seu anjo bem apertado, chovendo no molhado e dizendo para ele cuidar de você, como se a existência dele tivesse alguma outra razão que não essa. Velar toda a sua vida, ficar à espreita de todos os seus pensamentos, movimentos, sentimentos e decisões. Eu invejo tanto o seu anjo... Que minha reza chega a quase ser pecado. Que meu amor, em forma de oração, beira o egoismo. 

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Se

Quero dizer que sim. Eu enfrentaria todos os becos escuros que estivessem à minha frente, se eles levassem até você. Eu me faxinaria por dentro, limparia essa bagunça indecente que se tornou o meu interior, só para você entrar. E eu escancararia as minhas portas para você. Sem drama. Sem medo. Sem receio. Sem pensar duas vezes.
Ele voltou latejado, como há muitos anos não se mostrava a mim. E agora sei que é mesmo ele porque dói. Porque amar, não importa o quanto se enfeite a coisa, sempre vai doer. Sempre. A grande questão é se vai valer a pena ou não deixar que doa. Mas sempre dói e ninguém foge disso. E eu tenho experiência acumulada em dores inválidas.
Mas eu evitaria analgésicos e anestesias, eu me lançaria. Eu... Se você fosse real.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Formatura


Deixei um bilhete sobre a mesa pequena da sua sala. Não era despedida. Era um registo, de próprio punho, de que eu havia ido embora. Não gosto de me despedir, e afinal de contas, ainda vamos nos encontrar. Só não vamos mais nos fundir, nos misturar, nem trocar sonhos ou saliva. Tentamos.
Quase acreditei que eu fosse ser seu mundo, e quase cheguei a fazer de você o meu. Nos preocupamos tanto em sermos os diferentes que se completavam, que esquecemos de olhar para as semelhanças que talvez pudessem existir entre nós. Agora já não há mais tempo de reparar se elas um dia estiveram ali. É tarde.
Cumpri meu papel de ser inteiramente sua, com tudo que eu tinha, no tempo em que nós dois fomos um. Você, meu tutor. Meu porto seguro. Minha escola de vida. Minha faculdade de como ser eu mesma. Minha pós-graduação de como ser uma mulher. Mestrado de autoconfiança. Doutorado de autoafirmação. PhD de sex appeal.
Nos amamos carnalmente por cinco meses e vinte e sete dias. Faltava algo e quando eu pedi mais, você me ofereceu as chaves do seu apartamento, espaço para minhas roupas no seu armário, lugar para minha maquiagem no seu banheiro e escolheu o nome dos filhos que viriam daqui um ano ou dois. Você me ofereceu tudo que eu sempre quis, mas nada do que eu precisava: um pouco da sua alma.
Por isso resolvi partir. Porque percebi que não era sadio brincar de casinha quando não tem alma envolvida. Era tudo bom, e tudo uma delícia, mas era tudo tão vazio. Eu não podia continuar sendo a jovem madura querendo segurar a onda de um adolescente de meia idade. Nossos papéis trocados não nos favorecem. Obrigada por me mostrar que tenho asas. Ainda tenho tempo de aprender a voar, e não vou conseguir fazer isso enquanto estiver morando em sua cama.
Você me transformou numa mulher forte. Bem do tipo que não suporta ficar à espreita de homens como você. Eu já me anulei antes. Não vou fazê-lo de novo. Depois da qualificação: formatura.

domingo, 27 de outubro de 2013

Febre


É uma doença sem cura. Que volta. Se abraça com meu sangue e corrói centímetro por centímetro de minhas veias. Queima. Me implode. E eu imploro por sanidade. Rezando pra enlouquecer. Com sede. Com um velho desespero, que toda vez que me bate, é novo. Eu tenho urgência em preencher meus espaços.
De nada me adiantaram analgésicos, antibióticos, antitérmicos. A infecção voltou. Sei, porque tenho febre outra vez. E tenho sonhos. E tenho loucuras internas que por vezes querem se externar. 
Eu tenho calor de você. Eu nunca gostei tanto do fogo. É um sentimento mau. E eu cansei de ser boa moça.
Vontade dá e passa. Mas volta se a gente não mata. E ressuscita quando morre no prazer. E eu nunca quis viver tão perto da morte. Eu nunca quis tanto ser uma assassina.
Eu ainda sou um terreno baldio, escriturado no seu nome.

domingo, 14 de julho de 2013

Siccità


Talvez aquele dia sob o chuveiro tenha sido o último. A última dança. O último beijo. A última escalada. O último compasso. A última oralidade de coisas que não devem ser ditas. A última gota. O último sonho.
Não sei se minhas unhas voltarão a desenhar nas tuas costas aqueles caminhos tortuosos, daquelas dez estradas paralelas que não sabiam pra onde iam. Só sabiam que eram. E eram por causa da explosão, da combustão. Eram por causa do você dentro de mim, que só existia quando eu fechava os olhos. 
O magnetismo perdeu um pouco da força desde que se viu sozinho: a razão deu um tapa na cara da ternura, enfim. Desiludida, a idealização do (im)provável romance curvou a cabeça e se foi. Sentido, cadê? Acho que foi, também. Me resta só esperar o retorno do oitavo, para observar se ainda serão acesas fogueiras às seis da tarde.
A chuva que eu dizia, duvidando, que ia passar, passou. Lá de volta, outra vez, à estiagem? Não cabe mais essa coisa latente no meu céu azul particular. As peças deixaram de se encaixar na minha realidade inventada. A atração ainda existe, mas sozinha. E então começo a pensar que ímãs também têm prazo de validade.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Paralelo

Às vezes a gente precisa inventar um fantasma novo para fugir dos velhos. Colocar máscaras no próprio rosto, antes de se olhar no espelho. Fantasiar, de alguma forma. Enlouquecer, para recobrar a sanidade. 
Aí de repente tudo parece bem. A euforia volta, mas sem a dor. Recostar a cabeça no travesseiro volta a ser doce, porque dormir volta a ser bálsamo, pois os sonhos bons voltam a nos encontrar em nossa cama, basta que as pálpebras vendem nossos olhos. E não se trata mais de fogo como há pouco, nem de lágrimas como há muito tempo. É só doçura gratuita. Casa de chocolate no bosque, sem ter bruxa dentro.
João e Maria que se apeguem às migalhas de pão para marcar o caminho percorrido. A minha ideia é esquecer os passos dados bem onde eles devem ficar: na estrada atrás de mim. E me perder nesse mundo que sequer me pertence e apesar de paralelo e afinado no meu tom, é distante. E seguir sorrindo bobo e cantando, mesmo que como uma segunda voz desmicrofonada. 
E tudo diminui de tamanho e fica pequenininho: meu passado triste que não foi além, meu presente inflamável que secou o botijão de gás antes de ser futuro, e até os problemas de verdade. Troco minhas improbabilidades possíveis por uma probabilidade impossível. Deixo a irrealidade brincar de real e, propositadamente, vez em quando esqueço que é brincadeira. Faço isso sem culpa, para poder, em alguns momentos, deixar de lembrar que o amor não existe... E fantasiar que ele existe, sim. E sorri. Sorri pra mim! Ao menos uma vez na vida. Ao menos de mentirinha.


quinta-feira, 27 de junho de 2013

Quando sempre é nunca


Seis anos. Quase como que seis segundos de ventura em seis décadas de amargor. Lágrima que passou arrastada, no riso que precocemente se escondeu por trás dos lábios. Seis pedaços agonizantes de uma história que se esqueceu do "e foram felizes" antes do "para sempre".
O engraçado - para não ser trágico - é o quanto você ainda tem a melhor parte de mim, mesmo depois de tanto tempo. O quanto meus esforços de cortar todos os vínculos e me encaixar num mundo onde ninguém ao meu redor soubesse da sua existência foram em vão. O quanto a nota que vibra mais afinada em minhas cordas vocais ainda pertence a você, mesmo que para eu cantar bem, o coração tenha que ficar dolorido.  
E no meio da passagem desses pensamentos na minha cabeça, é no mínimo irônico constatar que eu também sou sua única história a ser contada. Eu não tenho nada além de você para mostrar às pessoas que amei, um dia. Você não tem nada além de mim para dizer que foi amado. Não daquela forma com pele, sangue, alma e vida. Ninguém lhe prestou serviços amorosos de vassalagem como eu. Ninguém se submeteu aos seus caprichos infantis por amor. Ninguém aceitou tantos calos nos dedos por massagear incessantemente o seu ego inflado. Ninguém nunca se estirou no chão para que você passasse por cima. Exceto eu. Ninguém nunca lhe amou daquela forma... Com aquele amor. Com este amor. Que me assombra durante meu sono, mesmo depois de morto e enterrado. Meu fantasma. Meu carma. Minha ópera que ecoa macabra por trás das minhas cortinas, mesmo que para quem olha da plateia, tudo pareça em seu devido lugar.
Ontem me disseram que seu tempo em minha história havia passado. Mas o seu tempo, incorrigível, não passa. O seu tempo é sempre. E não passa. Nunca.