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sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Meias


Era você sorrindo, dizendo com graça o quanto somos parecidos. Era eu morrendo de medo que isso acabasse com a gente. Eu sempre toda insegura, assistindo você me amar, temendo que você não suportasse conviver comigo. Porque você sempre disse que eu era você de saias e maquiagem. E sempre ouvi dizer que ninguém aguenta os próprios defeitos, em outra pessoa. 
Mas tem também a parte que nossa história fez da minha vida o avesso do testamento "Amai ao próximo como a ti mesmo". Nunca fui muito boa de me amar, exceto quando comecei a amar você. Porque quando você chegou, eu não tive escolha senão te amar. É impossível não amar uma pessoa como você, basta que haja a sua presença no mundo. Sua existência é bálsamo aos corações sensíveis. E meu coração é muito sensível, apesar da falta de amor próprio. Deixei de me amar justamente por sensibilidade em excesso: dei todo o amor que tinha no peito,  não sobrou nem para mim. Desobedeci o mandamento. Amando, pequei. Mas quando você veio o amor voltou. E quando te amei, reaprendi a me amar. Porque amei em mim nossas manias, que se fizeram nossas, pois eram minhas e iguais às suas. Passei a amar a mim mesma como ao próximo. Amei a mim mesma como amo a você. Amei o você que há em mim. Obrigada.
Só que hoje me peguei com medo. Porque segundo as leis da física, os opostos é que se atraem. Mas você me disse que juntos, somos opostos ao mundo e não um ao outro. Somos uma bolinha de meias: um par junto, no avesso. No fundo, acho que você tem razão.




segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Classificados: aluga-se um coração

Parece que você está de novo amor. Ou novo alvo. Ou nova vítima. Que seja, porque ao que parece, pela primeira vez eu não me importo. A ausência de ciúme me mostrou que o que me prendia a você era só apego. Era qualquer coisa, ainda que gosto doentio pelo sofrimento, mas não era sentimento. O que eu sentia por você já está longe demais, agora eu sei.
Procuro ainda coisas sobre a sua vida por puro hábito, mas no fundo, já faz tempo que não faz diferença. Me preocupei recentemente que você pudesse reaparecer, destruir a vida nova que construí minuciosamente. Não havia me dado conta que você não tinha mais poder sobre mim. Sim, porque se um dia eu estive sob o seu domínio, foi porque me permiti. Você não nasceu ditando regras sobre a minha vida. Tudo que você me causou de bom (e principalmente de ruim), foi porque eu me coloquei nas suas mãos. Eu teria caído fora há mais tempo, se tivesse percebido antes que o amor fez com que eu me emprestasse a você, mas que eu nunca deixei de ser dona de mim. Se quem dá, toma, imagina só quem empresta! Era só me tomar de volta e fim de papo.
Você foi por muito tempo meu inquilino. E daquele tipo que deixa o imóvel destruído e sempre está devendo o aluguel. Eu fui uma proprietária benevolente, que mesmo enquanto você fazia o meu coração em frangalhos, implorava que você jamais se mudasse dele. No fundo eu mereci tudo que chorei. Interpretei o papel de mocinha vitimada por tempo demais e me acostumei com ele. Chorava pelos cantos lhe pintando de bandido e orgulhosa do amor incondicional que trazia em mim. Queria me livrar de uma praga que eu mesma tinha me rogado, mas eu sempre fui meu próprio antídoto. A chave do imóvel sempre foi minha.
Ou melhor, não se tratava de um imóvel. O objeto de negociação era um músculo palpitante, que tem por endereço o lado esquerdo do meu peito. Vulgo meu coração. E numa das batidas violentas, você perdeu o equilíbrio e caiu para fora dele, não suportou minha intensidade. Agora que acabaram-se os atos e as cenas, vou lhe mandar uma real nos bastidores. Acabou a brincadeira e o teatro: você é medíocre demais para o papel de vilão e eu cansei de fazer a mocinha. Rasgo na sua cara o script dessa história melosa (que eu mesma escrevi) e também o contrato de aluguel. Na minha vida sou escritora, diretora, proprietária, maestrina que rege a orquestra. A banda toca do jeito que eu mando e o seu estilo musical nada tem a oferecer para minha voz. Você está fora, campeão, e a última palavra é minha.
Depois de uma bela reforma, o apartamento já está pronto para receber uma nova placa de "aluga-se". Ando mais bonita por dentro e por fora desde que você se foi, e por isso mesmo ando também mais cara. No novo contrato, excluí a cláusula que garantia altruísmo e devoção cega de minha parte. E adivinha... O pré-requisito principal para se candidatar à vaga de inquilino é não ser você. É não ser moleque, como você. É ser tudo que você não é e nem nunca vai ser: um homem.


terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Invasão

Amanheceu e eu não preguei o olho. Enquanto o sol se espreguiçava timidamente sobre o mar, eu fazia um esforço de míope para enxergar as gotas de orvalho beijando as folhas das árvores. Minha garganta estava seca... Como o meu coração. Era um domingo que começava cheio de perguntas sobre um sábado que poderia ter sido. E que não foi.
Seria possível que, a essa altura do campeonato, ainda fosse amor? Seria o ódio uma máscara escondendo a verdadeira face de um sentimento que nunca mudara? Não gostava de pensar na hipótese de que eu nunca o tivera esquecido, de fato. Alguma peça não se encaixava e em algum pedaço da história havia uma mentira. Mas em qual?
Não importava a que conclusão eu chegasse, a verdade é que a presença dele me incomodava mais do que sua ausência, acho. No entanto, eu tinha um argumento plausível para querer vê-lo: pisá-lo. Mas também não o queria por perto, crescente era a raiva que brotava em mim.
Eu poderia tê-lo visto naquele sábado, quando ele se inclinou até o meu habitat. Eu poderia tê-lo humilhado, assumindo um ar de superioridade, jogando-lhe na cara meu presente glorioso, em contraste com o fiasco de passado que ele me é. Mas recuei assustada... O destino não quis que eu presenciasse a cena dele tentando inserir-se naquele lugar que agora é minha segunda casa. Me incomoda a possibilidade de ele fazer parte do meu dia-a-dia outra vez. Se ele estiver presente em minha rotina de novo, de todo jeito terá sido em vão a minha vida nova, e algo em mim haverá de sucumbir. E então agora faz-se hora de desejar a ele o melhor, do fundo do coração. Não sendo altruísta como antes, mas num gesto de amor próprio. Porque se o melhor lhe for garantido, ele permanecerá distante e o meu novo mundo intocado.

domingo, 27 de novembro de 2011

Imprevisto

É curioso o que a vida fez comigo. Ou seria o que eu permiti que ele me fizesse? Hoje eu tenho muitas vezes um discurso de velha rabugenta, escondido atrás de uma conversa de "estou melhor sozinha", que nem sempre é convincente. E não consegue convencer porque não consegue ser verdade. Fui tão pisada que virei uma ferida aberta, ambulante, vagando numa estrada sem fim.
Vivo oscilando entre "Deus me livre" e "quem me dera" um amor. Não sei mais onde pode estar a verdadeira felicidade: se no riso forçado e sozinho, ou na lágrima sofrida de um coração preenchido. Fico boiando em minha superficialidade, buscando respostas que o mundo se recusa a me dar.
Adquiri fobia de mergulho. E não é de mergulho no mar. É de mergulho metafórico, mergulho na vida... Mergulho numa nova história que possa vir para mim. Quero adiantar os passos antes de andá-los, quero garantias de felicidade. Esqueci que se arriscar é dom da vida, e que só se vê o futuro quando ele sofre a metamorfose e vira presente.
Eu que nunca tive afinidade com os números, dei de querer calcular os riscos de apostar em alguém. Se jogo vicia, e o amor é um jogo, por que tenho medo de encarar outra partida depois de ter perdido algumas fichas? Vivo de bipolaridade: medo e vontade. Se existe alguém que eu era, e outro alguém em quem me tornei, quem realmente eu sou? Não posso deixar o receio responder por mim.
Estou maquiando com um sorriso triste a dor de ser sozinha. Preciso que alguém cause confusão e baderna nessa organização superficial que montei para mim. Falo tanto em amor próprio, que esqueço que o desejo de me apaixonar por alguém é uma forma de me cuidar também. Tenho que tirar do papel a ideia de que se arriscar é necessário e é tão vital quanto oxigênio. Eu preciso fazer e ir. E eu vou. Em busca de algo ou alguém que não se possa prever.





quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Inevitavelmente (me) amar

E eu finalmente estou aqui, neste ponto. Me refazer deixou de ser opção e agora é iminência. Não há mais para onde eu possa cair, cheguei ao fundo do poço. Não foi fácil chegar até aqui, como também uma recuperação plena não se dará facilmente; mas alguma coisa eu tenho de fazer. A vida exige de nós movimento constante, e não se pode parar.
Até então, vivi um movimento depreciativo. Ao invés de evoluir, me afundava cada vez mais. Tudo em nome de um amor cruel que hoje vejo que não tinha muita valia. Não importa o que tenha passado pela minha cabeça naquele tempo, eu só me doava sem me importar. Se não recebesse nada em troca, teria sido bom. Para isso, eu estava perfeitamente preparada. O problema é que ao invés do nada, me veio o chute, o desdém, a humilhação. Ainda aguentei por um tempo tão grande, que pode-se dizer ter sido algo sobre-humano. Sofri resignadamente e não sei exatamente qual o objetivo disso, mas me fez crescer. A dor apesar de ruim, tem esse poder de nos fazer amadurecer na marra. É o outro lado da moeda que vale a pena conhecer.
Claro que ninguém vai sair por aí procurando uma dor para sentir, só porque precisa virar gente grande do dia para a noite. Eu não procurei a minha dor, mas quando ela apareceu, a abracei com força e demorei a soltar. Só soltei mesmo quando não tinha outro jeito. De tanto me maltratar, não havia mais mal que pudesse fazer comigo mesma e até a inércia já tinha findado. O único caminho a seguir, era o caminho inverso. Comecei a me amar por falta de opção, porque precisava me mexer para me manter viva (a velha história da movimentação que a vida nos cobra).
É verdade quando dizem que é perdendo as coisas que se dá mais valor a elas. Eu precisei me perder para me dar o valor que me cabe. Agora estou focada em curar meu mal, me reinventar e ser feliz de novo. Eu quero recomeçar, virar a página de vez e escrever uma história nova. A vida não pára e exige que façamos o mesmo, porque ela não costuma esperar por nós. E aí, como dizia Caio Fernando Abreu, "Dá vontade de amar. De amar de um jeito 'certo', que a gente não tem a menor ideia de qual poderia ser, se é que existe um." - No momento, esse é o sinônimo de "nascer de novo" para mim. Amar de verdade, de forma saudável: primeiro Deus, depois eu, e por fim aquele que tiver de ser, e que virá... Ou que já veio.