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terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Diferença rimada


Ele só dorme
Quando eu me levanto
Vinho que sorve
É tinto
O meu é branco
Mas eu não minto
Dele eu gosto tanto
Que até voltei a rimar

A gente é diferente
Mas se agrega
Numa fé cega
De quem sabe amar

E se a gente não se encontrasse
O acaso escrevia uma frase
Eu seria sujeito
Ele predicado
Contendo meu verbo 
E todo meu passado
E todos os tempos que estivessem por vir

E nem importa
Se ele pensa em futebol
Enquanto eu quero ver novela
Fechei a porta
Mas ele é farol
Sua luz entrou pela janela

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

La mia ricchezza distanza


Passei a sentir uma dor emocional latejante desde que você se foi. Ela é intensa, mas suportável. Se não o fosse, eu já teria morrido ou algo assim, dada a constância com que ela me ataca. Sempre que me distraio, lá está ela, querendo me fazer em pedaços e quase conseguindo. Mas não é nada. Repito para mim que deve ser só TPM. Só que desde que você saiu do meu campo de visão, tenho tido pelo menos uma TPM por dia. Mas eu ainda sou uma mulher normal, que menstrua uma vez no mês. Acho. Só não sei se sou uma mulher inteira, depois que me arrancaram dos seus braços e separaram a gente.
Eu sabia que depois de tanto te ter por perto, quando você fosse finalmente embora, eu ia ficar mal acostumada e na merda. Só não estava preparada pra ficar tão na merda assim. Você sabe o que fez comigo? Não sabe. Nunca vai saber. Mas você me fez te amar. Você me fez venerar a sua idiotice. Assim, de graça. Chegou de mansinho e pronto, se proliferou. De grão em grão, virou um milharal no meu terreno. E eu nem ligo pro quão ridículo esse trocadilho possa parecer. Só algo assim é capaz de expressar o quanto essa coisa aqui dentro de mim é totalmente ridícula e sem sentido.
Às vezes eu sinto um frio na barriga enlouquecedor, como se a qualquer momento você fosse dobrar a esquina, tocar minha campainha, sorrir pra mim daquele jeito, se hospedar na minha rotina outra vez. O coração quer pular pela boca, mas no fundo ele sabe que você não vai vir tão cedo. E quando vier, talvez nem lembre de mim. Talvez nem lembre da gente. Mas meu coração é burro e insiste em me esmurrar por dentro do peito, num gesto de extrema alegria, toda vez que sua imagem cruza meu pensamento de forma despretensiosa. É o jeito que ele tem de demonstrar que está guardado dentro da minha caixa torácica por uma questão biológica, mas que o dono dele mesmo é você. Tenho um cãozinho amestrado no peito, que só obedece ao adestrador. 
É torturante. Mas em meio a toda essa agonia, não deixo de reconhecer a doçura que invade de vez em quando. Você vale mais que um jatinho particular, uma conta bancária recheada no exterior, um perfume importado, um anel de brilhantes. Minha maior riqueza sentimental. Sonho acima de qualquer consumo. Você é minha ilha particular, terra firme capaz de impedir que eu, embarcação, naufrague no meio do oceano. O que me dói é que eu não tenho bússola.


domingo, 2 de fevereiro de 2014

Desperta a dor


Dá licença, mundo, hoje eu tô querendo sonhar. Amanheci com preguiça da realidade. Você só tem me dado amarguras e aqui dentro da minha cabeça eu encontrei coisas doces. Encontrei ele, doçura personificada. Já pensou se eu e ele... Não? Eu já. Pera, que já te conto.
Depois de muito olhar em volta, admirando aqueles quadros, que pareceram mais bonitos depois de terem tocado a retina dele, eu me poria de pé. Embriagada pelo cheiro característico daquele lugar - que eu sinto como sendo o cheiro dele, só porque já esteve em suas narinas -, eu iria embora. Eu, guturalmente apaixonada pela minha terra, família e amigos, cultuadora do apego, apego, apego, apego, apego e das raízes fincadas, desapegaria. Desenraizaria. E me fincaria em qualquer terra, daqui ou de marte, desde que ele também estivesse plantado por lá. De vez em quando eu ia chorar de saudade de casa, mas ele me consolaria fazendo amor e tudo ficaria bem.
As tardes de sábado seriam menos enfadonhas, porque depois de algumas horas no quarto dele, namorando, cantando e compondo, a gente iria ao cinema, a um bar, ou aos dois. E a gente falaria de vida e de música e faria mil planos, porque teríamos a vida inteira - com música - pela frente juntos. No bar, com ele sentado ao meu lado, eu pediria ao garçom a cerveja mais gelada pro homem da minha vida (homem-da-minha-vida soa muito melhor que homem-dos-meus-sonhos, título que ele tem atualmente). E nada em volta importaria, porque eu estaria sentada ao lado dele, enchendo de cheiros o seu cangote, inalando o seu perfume, misturado com suor e cerveja: melhor aroma do mundo. Como uma boa filha arretada de Seu Pernambuco, eu ia esquentar ele todo por dentro.
Lá pras tantas a gente sairia dali para o meu apartamento e bêbado, ele ia querer deitar do jeito que tinha chegado. Mas eu ia protestar dizendo que ele tava sujo e eu mesma lhe daria um banho. Faria cafuné na cabeça dele, enrolando meus dedos nos seus cachos, em meio à espuma do shampoo. E eu, que sempre achei lindo homens de cabelo escorridinho, cara lisa e peito também, me pegaria venerando tanto aqueles cachos, pelos e barba, que acharia a vida uma ironia completa.
Do chuveiro, a gente se rebocaria mutuamente pra minha cama. Depois do banho, ele estaria desperto e ia me querer. E como eu quero ele sempre, a todos os instantes, a gente se amaria. Enquanto os raios de sol invadiriam meu quarto, anunciando o amanhecer, ele invadiria meu interior, anunciando o amor. Aí quando o cansaço enfim chegasse, a gente ia dormir abraçado e as batidas do coração dele seriam minha canção de ninar.
Passados um ano ou dois dessa rotina doce, a gente estaria junto duma vez. E nem ia precisar de casamento na igreja ou festa, como eu sempre sonhei, porque ele é o meu sonho maior. Eu não o vejo engomadinho, esperando por mim num altar. Não combina com o jeito despojado que ele tem. E eu não mudaria absolutamente nada nele. 
Mais alguns anos, viriam nossos filhos de cabelos pretos feito ébano. Um menino, uma menina. A gente tatuaria os nomes deles. Ele, com a minha letra e eu, com a dele. Porque eles seriam os melhores presentes que daríamos um ao outro, numa vida toda. 

- Já deu a minha hora de acordar? Não, espera... Só mais cinco minutinhos.



Fuga ao tema



Parei pra reler alguns textos antigos. Todos tão cheios de sentimentos, e tantos viraram piada com o tempo. Isso porque as emoções se perderam nas tantas esquinas da vida. Coisas que perdem sentido, ou simplesmente deixam de ser. Mas o que vale mesmo é que todas foram, um dia. Mesmo que já não sejam. E enquanto foram, todas estavam repletas de muito amor.
Descobri que sempre foi o amor a minha pauta. Meu tema central. Minhas arestas também. Talvez tenha sido ele o causador da discórdia entre mim e a minha profissão. É que não sei escrever sobre qualquer coisa que seja não-amor. Se eu falo sobre como me doeu a perda da minha mãe, é amor óbvio, latejado e escancarado. Mas se eu falo do vento que sopra sem saber para onde está indo, é amor nas entrelinhas. Não me pergunte como, mas é assim que é: sempre amor. Uma regra implícita, que implicitamente eu me recuso a burlar. Desde menina acho uma escória se levar zero numa redação por fuga ao tema. Por isso não fujo, ainda que tema.
Acho graça nessa coisa, de só saber escrever sobre amor. Você pode revirar esse blog, revirar minha vida, meus cadernos, meus diários da adolescência... Tá cheio de amor neles. Em cada frase. Em cada letrinha datilografada ou escrita do meu próprio punho, com minha caligrafia disforme. Até quando eu falo de ódio, estou amando primeiro.
É engraçado que eu, tão analfabeta de amor, tão desamada por repetidas vezes, tão colecionadora de inexperiências e "quases", consiga falar dessa coisa como alguém que realmente tem algo a dizer. Como alguém que entendesse disso. Tenho tantos conselhos escondidos nas mangas, os dou tantas vezes, mas nunca os usei comigo. Falta de chance, ou de sorte.
A questão toda é que eu consegui, daqui deste lugar onde sempre me encontro (pode-se dizer que seja o topo da minha solidão), ter amado tão pouco, mas ter amado demais.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Amor de bus


Corri pra pegar o ônibus e quase que o perdia. Estava lotado. Assim que passei pela catraca, o avistei. Não pude mais tirar os olhos dele. Dei graças a Deus quando fui me locomovendo pelo corredor e o moço que estava sentado ao lado dele acenou para mim, me dando o seu lugar, porque desceria na próxima parada. Destino, quem sabe.
Ele estava com o cabelo meio bagunçado, uma camisa social clara, por fora da calça jeans surrada e com as mangas dobradas na altura dos cotovelos. Era um tipo engomadinho quase despojado, ou um tipo largado tentando ser arrumadinho. Não sei ao certo. Mas era encantador. Ah, se era. Trazia o cheiro do perfume masculino que eu mais gostava, misturado ao cheiro da própria pele, formando um aroma especial. Muito provavelmente eu não estava perto dele o bastante para fazer uma constatação desse tipo, minha imaginação aguçada deve ter me ajudado.
E eis que o fato encontrou sua consumação quando reparei que dos seus fones de ouvido vazava a voz de Elis Regina. Só poderia mesmo ser um sinal: ele gostava da minha cantora preferida. Encontrei o homem da minha vida num dia qualquer, dentro de um ônibus que eu costumava pegar todos os dias, nos mesmos bat-local e hora.
Terminamos nos casando. Tendo três filhos e um cachorro. Passando todas as tardes de sábado do resto das nossas vidas no parque. Tocando violão e cantando músicas de Elis aos domingos. Compondo dezenas de rocks rurais. Plantando nossos amigos, discos e livros e nada mais. Não necessariamente numa casa no campo.
Mas nossa vida inteira juntos não durou mais que cinco minutos. Ele levantou, puxou a cordinha, pediu parada e desceu no ponto seguinte. Pedi o divórcio no ato. Nunca mais vi meu ex-marido. Nem sei como se chamava.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Ébano



Oi. Tô te ligando só pra dizer que tem cerveja aqui na minha geladeira e eu sempre achei deprimente demais beber sozinha. Olha, eu sei que já deve estar tarde no seu relógio, porque o meu já está marcando uma e trinta e sete, e é da manhã. Mas eu queria que você soubesse que ainda pode ser cedo na vida, pra gente, é só você querer. E eu tenho latas de cerveja na geladeira. Se eu tô bêbada? Só se for da sua ausência. O único porre que tenho tomado é do lugar vazio que você deixou, menino. Eu brindei o amor e você foi embora antes que eu sorvesse todo o líquido da taça. Eu não te bebi até o fim, você não tinha o direito de me deixar ainda.
Ei, por favor, volta. Eu tenho cerveja da marca que você gosta, e posso comprar cigarros pra você na banca da esquina também. Não tenho problema em voltar a ser fumante passiva outra vez. Que se dane minha bronquite alérgica. Prefiro ter pulmões fodidos do que um coração na merda. Tossindo eu não posso cantar? É. Mas eu não quero cantar sem você aqui, porque sem instrumento me acompanhando eu perco tom, e eu não sei tocar nada. Exceto você. Em você eu sei tocar como ninguém, você sabe. Sei de cor cada acorde sem vergonha do seu corpo. A gente devia esquecer essa nossa pausa, inventar um arranjo novo, quem sabe.
Não, eu não tô chorando. Tô chorando. Tô desesperada, porque sinto a sua falta. Não me venha dizer que eu sou uma pessoa maravilhosa, você não está aqui para ver como eu fico um saco sem você por perto. Nem eu posso comigo. Não é que eu não goste de mim. Eu me gosto, sim, mas gosto mais da gente. Talvez a única coisa que eu goste em mim seja a cor dos meus cabelos. Você já reparou como é difícil encontrar gente de cabelo - não castanho escuro - mas preto feito ébano, sem ser pintado? E a cor do seu cabelo é igual à cor do meu. A gente pode ter filhos de cabelo preto, e eu sempre tive compulsão por filhos morenos. Um bom motivo pra você voltar. Já tentei dormir, não consigo. Você já me causou insônia antes, só que foi de felicidade. Agora eu já não sei.
Olha, que coincidência! Tenho cerveja na geladeira! E tenho cerveja preta também. Preta que nem o meu violão que tá ali largado, sem você pra me ensinar a tocar nele. Preta feito a noite que é mais longa na minha cama vazia. Preta que nem o meu cabelo e o seu, e os nossos olhos também. E os olhos e cabeleiras dos nossos filhos, que vamos compor com músicas, se você voltar. Diz que volta. Tenho cerveja aqui, pra todos os gostos. E tenho eu, pra todos os gostos e quereres que forem seus. Se você quiser o mundo, eu boto ele todo dentro desse apartamento agora. Você não precisa trazer nada, além de carinho e você, pro nosso edredom.


quinta-feira, 23 de janeiro de 2014


Sete anos depois eu finalmente percebi que talvez nunca tenha sido amor, de fato. Das coisas que me lembro sobre o que eu sentia por você, a certeza que me bate mais forte é de que eu rezava. Todos os dias. Religiosamente e tendo o coração o mais contrito possível. Eis o lado bom do meu desfortúnio: me levou a Deus. Não porque eu precisava pedir que Deus te trouxesse para mim, mas porque eu precisava dizer a Ele o quanto eu te amava e o quanto eu te queria feliz. Nas minhas orações, nunca era eu. Era você primeiro.
A partir daí, todo aquele meu altruísmo tem explicação. Amor que se doa até a dor, até depois da dor. E cada vez que você me humilhava, eu resistia. I Coríntios 13 era o meu lema. "Crer. Suportar. Esperar". Não se tratava mais do amor que eu sentia, mas da minha fé cega, que me fazia acreditar que nada importava, um dia, seríamos um. Eu tinha fé nisso. Eu tinha fé que Deus faria isso, que isso era a vontade d'Ele. Era uma fé cega num Deus que - graças a Deus - decidiu que eu ficaria melhor sem você. E estou melhor. Até hoje.