Mas agora, no fim
Te sou grata
Obrigada pela breve loucura
Obrigada pela breve doçura
Obrigada pelas rimas de volta
Enfim
Obrigada porque
À minha maneira torta
Meu quase amor por você
Reviveu meu amor por mim
sábado, 16 de janeiro de 2016
sexta-feira, 1 de janeiro de 2016
Ele
Os fogos de artifício pintando o céu com multicores, e ela ali, num cantinho da varanda, encostadinha na grade. Olhava tudo encantada, tinha fé no novo. Tinha fé em Deus. Com o coração acelerado e a respiração ofegante, pedia, pedia, pedia.
- Qual o teu desejo de ano novo, menina? - perguntaram.
- Ele. - respondeu com os olhos brilhando.
- Qual o teu desejo de ano novo, menina? - perguntaram.
- Ele. - respondeu com os olhos brilhando.
Amanhecendo
Que nosso amor amanheça
Junto ao primeiro sol do ano
Que a gente se mereça
Que não seja engano
Que a gente plante rosas
Que tenha verso e prosas
Pra gente se rimar
Neste ano novo, de uma vida breve
Que o vento passe e leve
O que nos afastar
terça-feira, 29 de dezembro de 2015
Rosa dos Ventos
Moreno bonito, distante
Se eu nunca te vi antes
Foi pra não me apaixonar
Apaixonada feito agora
Rogando a Deus, Nossa Senhora
Onde é que eu posso te encontrar?
Rosa dos ventos me apontou sentido
Me deu motivo, destino, lugar
Eu voei com medo e tudo
Partindo pro seu mundo
Por favor, me deixa entrar
Eu te vi tanto, mas foi tão pouco
Esse encanto só pede mais
Quero teu colo e quero de novo
Pra esquecer todos meus ais
Vou deixar o tempo passar
O mundo girar
A roseira florir
E eu vou te encontrar
Outra vez
Obs: Rosa dos Ventos é uma obra musical, com letra de Natércia Dantas e melodia de Diego Oliveira
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domingo, 27 de dezembro de 2015
Eu sei que vou te amar
Te escrevo sabendo apenas que você virá. E falo assim, sem mais receio de parecer louca e/ou tonta, só porque sei que você é, em algum lugar desse mundão de meu Deus. É você. E eu exercito a minha fé ao te falar assim, com tanta convicção. Eu te acredito e sigo fazendo de você a minha prece de Natal, meu desejo de Ano Novo, meu pedido a estrelas cadentes. Mas não peço para que você exista, nem que sua chegada seja antecipada. Sei que você é. Sei que você vem. Leve o tempo que precisar para que seja pra sempre. Eu só peço a graça de te reconhecer. Peço o dom de te olhar e, desde a primeira vez, saber que eu vou te amar.
Não, não vai ser amor à primeira vista, essa coisa vazia. Mas, à primeira vista, vou saber ver em você terreno fértil pro meu amor brotar. E então ele não será mais meu, e sim nosso. Vou - vamos! - pouco a pouco cuidando da terra e, quando nos dermos conta... Teremos botões de rosas brotando por todo canto dentro de nós. E mesmo agora, que nem chegou a hora de semear, já me pego olhando as sementes tão lindas e intocadas que tenho em mim, imaginando-as florir. Dentro do peito, meu amor dorme o sono dos justos. Foi quase acordado por alguns, mas ainda não era hora dele despertar. E nenhum dos despertadores era você. Apenas quando você vier é que ele vai se espreguiçar debaixo das cobertas e levantar feliz, satisfeito. Acordar pra vida. A nossa vida. Só você pode me acordar o peito e eu vou saber disso quando te ver.
No mais, desde já desejo que a gente se reconheça, se encontre (no sentido mais amplo que a palavra possa ter) e se ame. Desejo pra gente mãos dadas na beira da praia, sete ondas puladas nos próximos réveillons, dormidas juntos de conchinha, risos doces... E por falar em doce, desejo pra gente algodão doce, bolo de cenoura com calda de chocolate, sorvete, fins de tardes dominicais no parque. Desejo pra gente pores do sol, nasceres do sol, luas cheias, eclipses, banhos de chuva, de piscina, de mar... Mas de chuveiro também vale. Desejo que a minha bagagem não te incomode, só te acrescente; e que a sua seja da mesma forma pra mim. Desejo pra gente voz e violão, letra e música, sons. Uma trilha sonora memorável. Desejo pra gente filhos, dois pares de olhos sempre brilhando, aplausos sinceros de um para as conquistas do outro. Alegrias multiplicadas, dores divididas. Brigas. Pras pazes virem se fazendo amor. Eu desejo tanto pra gente, e desejo tanto a gente, que eu sei: quando te ver, vou ter a certeza de que vou te amar.
quarta-feira, 2 de dezembro de 2015
Pressa de amar. Prece de amor.
Os dias começavam a variar a velocidade com a qual passavam. Novembro, tão doce, parecia ter ido embora como que em uma semana. Dezembro já chegava mais austero, como que cobrando racionalidade, apontando o fim de um ano difícil. Pela dificuldade toda da vida, o fim do ano era consolo. Mas, por outro lado, era uma espécie de cobrança de realidade. Era algo que parecia querer estipular um prazo de validade para aquela coisa - nova, mas velha conhecida - que teimava em ocupar espaços no peito dela durante as últimas semanas. Só que tudo não passava de abstração. O tempo que aquilo levaria era indefinido. Ela poderia estar curada em um dia, uma semana, um mês, um ano... Ou nunca. Não era possível prever.
E enquanto continuava imersa neste tempo indefinido, seguia sonhando com ele. Todas as noites. Desde a primeira vez que o vira. Os sonhos eram diferentes, mas no geral tinham o mesmo enredo. Era sempre ela indo atrás dele: batendo à sua porta, telefonando, mandando mensagens. Podia ser um sinal do universo para que ela o procurasse. Ou só o reflexo da sua vontade reprimida. Ela queria, mais que qualquer coisa naqueles dias, procurar por ele. Mas não sabia como, e muito menos se era a coisa mais correta e sã a se fazer.
Sanidade. A dela parecia ter se esvaído. Ou estava momentaneamente escondida num lugar que ela não sabia onde ficava. Mas estava tentando não pensar naquilo, naquele momento. Estava estranhando seus próprios desejos e atitudes, porém, achava que a sensação merecia ser desfrutada. Afinal, poderia ir embora da mesma forma repentina como havia chegado.
Era uma agonia inebriante e tudo que ela conseguia fazer era sentir a necessidade de mais. Sentia falta dele como se sente a falta de gente muito especial na vida, só que mal o conhecia. Tinha saudade dos poucos dias em que pôde acordar com ele por perto. Tinha uma vontade desesperada de voltar no tempo. Mas como é sabido de todas as gentes, isso não é permitido a ninguém. Ela teria de construir novas lembranças. Não poderia voltar, só seguir e esperar com todo coração que o encontrasse de novo em alguma esquina, algum lugar. Não tinha mais a quem recorrer, senão a Deus, anjos, santos, rosas... Pedia perdão antes de cada prece, pensando estar gastando sua fé com coisa tão pequena, mas ainda assim, rezava. Suplicava. Fazia novenas. Ficava se perguntando se não seria pecado pedir a Deus o coração daquele moço, com um mundo todo sofrendo tanto por causas mais sérias, mais reais. Mas mesmo assim, não deixava de pedir. Era só o que podia fazer. E era tudo o que faria. E continuaria fazendo. Até que o céu a ouvisse. Até que suas orações a levassem para junto dele outra vez.
sábado, 7 de novembro de 2015
Xeque
Sentiu uma vontade incessante e escandalosa de sair correndo naquele dia. Sabe Deus em qual direção. Talvez para o mar, mas terminaria afogada. Ou melhor, já se sentia naufragar mesmo em terra firme: suas emoções indecifráveis não a deixavam abastecer os pulmões como devia. Inspirava um ar entrecortado. Estava agitada demais para saber onde se lançar.
Dentro da caixa do peito, o coração protestava. E ela não entendia. Era verdade que os tempos não andavam exatamente fáceis, mas aquele mal estar emocional agudo e repentino parecia não fazer o menor sentido. Era a agonia que não lhe permitia discernir. Se fosse capaz de se ouvir um pouco, perceberia que aquele som, ensurdecedor e desafinado, que lhe vinha de dentro, nada mais era que sua alma, em movimento. Estava rompendo mais um de seus casulos. Agora, um no qual nem sabia que havia se enfiado.
O tempo, que até então se arrastava, parecia ter resolvido correr. O calor que fazia àquela época do ano colaborava com o sentimento de ansiedade. Convites: a cidade a chamava para fora, a vida a chamava para ler - ou escrever - as próximas páginas, e ainda tinha aquele quê de hiperatividade, que a intimava a se mover. Tinha que acabar aquela partida, para dar lugar a outras. Era chegada a hora de mais um xeque-mate.
E num piscar de olhos, percebeu: o coração revolto, que bradava no peito, não estava simplesmente batendo. Estava mudando.
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domingo, 4 de outubro de 2015
A verdade
Você foi a pior coisa que aconteceu na minha vida. Não quero parecer rude. Mas o que se há de dizer sobre esses amores que destroçam a gente por dentro e que tornam lágrimas coisas banais do cotidiano? O (nosso amor) meu amor por você era desses. Meus amigos me viam chorando pelos cantos e já sabiam o motivo. Você. As burradas que você fazia. Aquele seu jeito cheio de si, mas ao mesmo tempo completamente infantil, de fazer piada sobre o que me batia no peito. A sua mania feia de fazer pouco caso de mim quando a sua "galera" estava por perto.
"Ele não te merece": frase recorrente na boca dos meus amigos, que acertavam meus ouvidos e ecoavam dentro da minha cabeça. Mantra alheio que fazia eu me perguntar quão pequena eu poderia ser para caber no teu merecimento. Eu cogitava me diminuir, se fosse o caso de realmente acreditar que era muito pra você e não o contrário. Pra mim, aos meus olhos - míopes -, à minha audição - prejudicada -, aos meus sentidos - tortos -, ao meu coração - eternamente descompassado -, era sempre você o lado grande da história.
Mas sabe o mais irônico? Se eu sorria bobo e largo, todo mundo também sabia que era por sua causa. Você precisava de pouco, muito pouco, para me emanar doçura. Para me dar sonhos bons de madrugada. Suspiros no meio das aulas de Matemática. Poesia - que, claro, eu que escrevia - nas aulas de Literatura. Relatos repletos de alegria apaixonada no meu querido diário. Hoje eu leio as coisas que escrevia naqueles caderninhos e só consigo sentir vergonha alheia de mim mesma. Sim, alheia. Porque aquela não sou eu. Não mais. E você também é o motivo.
Obrigada por me ensinar tanto sobre mim. Te amando, eu vivi um autoconhecimento que talvez eu não tenha mais na vida, de uma maneira tão profunda, e decisiva, e válida. Te amando, vi que perdão é uma arte que demanda mais tempo do que palavras. Percebi, depois de muito murro em ponta de faca, que Deus disse para nós amarmos o próximo como a nós mesmos, logo, se eu não me amar primeiro, não tenho condições de amar ninguém de forma saudável. Depois de Deus, eu tenho que ser o meu primeiro amor. E permanente. Te amando, descobri que é nobre - não bobo - querer o bem a quem nos faz mal. E percebi também que nem todo mal que nos fazem é intencionalmente. Te amando, eu acreditei e desacreditei em destino e alma gêmea. Eu percebi que planos a longo prazo têm grandes chances de serem modificados, porque a vida muda e com ela, a gente muda também. E mudam os quereres. E isso não é ruim! Mover-se é não estar no mesmo lugar, é não querer o mesmo lugar. Isso é rico. Te amando, eu fui de sonhadora-romântica-primordialmente-platônica-iludida-apaixonada-esperando-conto-de-fadas a jovem moderna que escolheu a racionalidade por porto seguro. Percorri esse longo caminho pra depois recuar um pouco e escolher ficar no meio termo. Equilíbrio, enfim.
Depois de te amar, confirmei que amor não acaba, muda. De pronto, onosso meu se tornou raiva, mágoa, veneno, trauma, e depois de tanto despejar dentro de mim essa coisa amarga, virou paz. Virou a história engraçada, inusitada, maluca, infantil e apesar de tudo doce, que eu conto até hoje. Que eu acho que vou contar sempre. Que acho, inclusive, que vou usar de exemplo para consolar as dores adolescentes dos filhos que ainda quero ter na vida, e veja só, não com você. Depois do amor, vivi um tempo de clausura nos meus próprios porões. E vi que fui eu que me tranquei, pelo lado de dentro. E aí, depois de muito te perdoar em silêncio, tive que te pedir perdão. Finalmente reconheci que não era justo colocar na sua conta todos os meus medos e frustrações. Vi que não era certo com você, e nem comigo, eu te usar como desculpa para não seguir em frente. Foi então que pedi perdão a mim, e me perdoei.
Eu te desejo muita luz, muito amor, muita fé, muito axé, muitas coisas lindas, longe de mim. E longe de ti, me desejo o mesmo, que também sou filha de Deus e, hoje sei, não sou menor que ninguém. Amado, você foi a melhor pior coisa que aconteceu na minha vida. Gratidão.
"Ele não te merece": frase recorrente na boca dos meus amigos, que acertavam meus ouvidos e ecoavam dentro da minha cabeça. Mantra alheio que fazia eu me perguntar quão pequena eu poderia ser para caber no teu merecimento. Eu cogitava me diminuir, se fosse o caso de realmente acreditar que era muito pra você e não o contrário. Pra mim, aos meus olhos - míopes -, à minha audição - prejudicada -, aos meus sentidos - tortos -, ao meu coração - eternamente descompassado -, era sempre você o lado grande da história.
Mas sabe o mais irônico? Se eu sorria bobo e largo, todo mundo também sabia que era por sua causa. Você precisava de pouco, muito pouco, para me emanar doçura. Para me dar sonhos bons de madrugada. Suspiros no meio das aulas de Matemática. Poesia - que, claro, eu que escrevia - nas aulas de Literatura. Relatos repletos de alegria apaixonada no meu querido diário. Hoje eu leio as coisas que escrevia naqueles caderninhos e só consigo sentir vergonha alheia de mim mesma. Sim, alheia. Porque aquela não sou eu. Não mais. E você também é o motivo.
Obrigada por me ensinar tanto sobre mim. Te amando, eu vivi um autoconhecimento que talvez eu não tenha mais na vida, de uma maneira tão profunda, e decisiva, e válida. Te amando, vi que perdão é uma arte que demanda mais tempo do que palavras. Percebi, depois de muito murro em ponta de faca, que Deus disse para nós amarmos o próximo como a nós mesmos, logo, se eu não me amar primeiro, não tenho condições de amar ninguém de forma saudável. Depois de Deus, eu tenho que ser o meu primeiro amor. E permanente. Te amando, descobri que é nobre - não bobo - querer o bem a quem nos faz mal. E percebi também que nem todo mal que nos fazem é intencionalmente. Te amando, eu acreditei e desacreditei em destino e alma gêmea. Eu percebi que planos a longo prazo têm grandes chances de serem modificados, porque a vida muda e com ela, a gente muda também. E mudam os quereres. E isso não é ruim! Mover-se é não estar no mesmo lugar, é não querer o mesmo lugar. Isso é rico. Te amando, eu fui de sonhadora-romântica-primordialmente-platônica-iludida-apaixonada-esperando-conto-de-fadas a jovem moderna que escolheu a racionalidade por porto seguro. Percorri esse longo caminho pra depois recuar um pouco e escolher ficar no meio termo. Equilíbrio, enfim.
Depois de te amar, confirmei que amor não acaba, muda. De pronto, o
Eu te desejo muita luz, muito amor, muita fé, muito axé, muitas coisas lindas, longe de mim. E longe de ti, me desejo o mesmo, que também sou filha de Deus e, hoje sei, não sou menor que ninguém. Amado, você foi a melhor pior coisa que aconteceu na minha vida. Gratidão.
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sábado, 27 de junho de 2015
Vecchio
Não tenho escrito nada de muito valor desde que nosso laço afrouxou. Ele que esteve tão firme, com fitas brilhantes, agora está quase que desatado por completo. Uma pena. Em consequência disso, me falta inspiração. Mas quero te dizer que fui feliz. Nossa relação cintilava. Nos entendíamos como poucos, sendo poucos, dentre muitos. E os dias em que você não ligava se arrastavam pela passarela do tempo. Às vezes, minha primeira frase pela manhã, ao falar com Deus, era "que ele me ligue hoje. Amém!". Nem sempre o amém se fez. Mas quando se fez, eu fui muito feliz. Eram minutos vários, alguns que até se faziam hora, e eu me sentia bem. Toda aquela euforia doce que eu já conhecia, agora tomava uma forma inédita: conseguia, em meio ao descompasso do meu coração, ser serena.
Tem dias, como hoje, que a falta de você lateja. Às vezes penso em telefonar, perguntar como foi o dia, como têm sido os dias longe de mim... Mas tenho medo da resposta. Coragem nunca foi o meu forte. Nem frieza. Aí fico aqui no meu canto, curtindo o que me resta: a memória de um calor que não mais me aquece. Sabe, velho, naquela época eu poderia jurar que... Mentira. Eu não jurava. Duvidava até a última gota. Talvez por isso mesmo hoje estejamos como estamos. Você aí. Eu aqui. E vale ressaltar que entre "aí" e "aqui" parece haver um largo abismo. Safo mesmo é Frejat, que sabe ler sinais do corpo em conversas demoradas. Eu, analfabeta sentimental, não soube. Ou soube e fingi não saber porque, pra variar, tive medo.
Essa semana eu estive pensando em como tudo teria sido diferente se você tivesse falado o que eu queria ouvir assim, com todas as letras. Pensei em como nosso destino seria outro se, ao invés de esperar que minha autoestima limitada juntasse lé com cré, você tivesse ido direto ao ponto, como tantos outros fazem. Mas talvez o meu medo tivesse me segurado da mesma forma, e depois de ir direto ao ponto, você voltasse com as mãos vazias de mim e eu pegasse o caminho oposto com as mãos vazias de você, como sempre é. E aí você iria parar na minha galeria dos outros, que tocaram a campainha e deram com a cara na minha porta. Eu e minha incapacidade de doação afetiva teríamos transformado você em mais um que não foi convidado para festa. Só que não seria verdade. Na real, você deveria ter passe livre. E talvez eu só esteja dizendo isso, da sua entrada liberada, porque sei que você não vem mais. Tenho um tesão louco por impossibilidades.
No fundo, no fundo... Não sei se a nossa amizade era de fato benéfica pra mim. Sempre, em alguns trechos do caminho, eu terminava alimentando uma ponta de ilusão. Acho que era ilusão. Hoje, olhando aquilo que a gente tinha, não dizer o que era realidade e o que era fruto da minha imaginação fértil. Para mais, ou para menos. Sim, porque eu posso ter criado em alguns momentos a ilusão de que você me amava. Mas, pelo medo de sempre, eu posso também ter justamente me iludido pelo contrário. Pelo sim ou pelo não, é bom que eu não te tenha com justificativas ambíguas. As duas possibilidades seriam dolorosas: ter desperdiçado - por pura cegueira - o amor que você tinha para mim; ou ter te perdido justamente porque nunca tive, e porque você nunca me amou. O meio-termo me conforta mais. Ficar pensando nessa história e nos seus "ses" desvia um pouco minha atenção do final indesejado. Ou inevitável. Por via das dúvidas, foi a maldade do tempo que quis que você estivesse aí e eu aqui. Só porque "aí" e "aqui" nunca serão o mesmo tempo, nem o mesmo lugar. Nem o mesmo querer. Nem o mesmo nada. "Aqui" e "aí" são ridícula, imutável e cruelmente opostos. Água e óleo.
Mas sabe que ainda acho que seria bom se você viesse, velho? Nem que fosse para, ao se tornar possível e ao alcance, me fazer deixar de te querer.
segunda-feira, 1 de junho de 2015
Adeus, maio velho! Feliz junho novo!
Chegou ao fim um maio nebuloso. Foi um mês-montanha-russa, no qual encarei os altos e baixos ora gritando, perdendo a compostura... E ora engolindo o grito. Ora em êxtase, e ora sentindo muita dor. E o mais irônico é que, dentre todos os meses do ano, o que eu mais esperei foi maio. Agora, ao fim, eu já não via a hora de maio partir. E foi-se. Graças a Deus.
No começo desse mês eu experimentei doçurinhas. Ele não foi de todo ruim. Mas no que foi ruim, decidiu-se por sê-lo com convicção. Devo admitir que no se propôs a fazer, maio caprichou e fez bem feito. Maio me feriu. Ou melhor, maio deixou que me ferissem. Não satisfeito, foi além: deixou que eu ferisse gente, só pra eu sofrer ainda mais, ao me perceber no papel do algoz. Tinha que ter uma cereja no bolo. E tinha que ser bem amarga.
Valeu a viagem. Agora deito nos braços do mês que entra. Conto com a brisa de junho para me manter sã, com a cabeça fria e no lugar. Conto com o aconchego que o frio pede, para poder encontrar o perdão que em maio não consegui dar, nem receber. Conto com a chuva de junho, para me lavar. Conto com a magia dos recomeços, para que toda mazela de maio tenha ficado mesmo por lá. Conto com os santos de junho, para orarem por mim.
No começo desse mês eu experimentei doçurinhas. Ele não foi de todo ruim. Mas no que foi ruim, decidiu-se por sê-lo com convicção. Devo admitir que no se propôs a fazer, maio caprichou e fez bem feito. Maio me feriu. Ou melhor, maio deixou que me ferissem. Não satisfeito, foi além: deixou que eu ferisse gente, só pra eu sofrer ainda mais, ao me perceber no papel do algoz. Tinha que ter uma cereja no bolo. E tinha que ser bem amarga.
Valeu a viagem. Agora deito nos braços do mês que entra. Conto com a brisa de junho para me manter sã, com a cabeça fria e no lugar. Conto com o aconchego que o frio pede, para poder encontrar o perdão que em maio não consegui dar, nem receber. Conto com a chuva de junho, para me lavar. Conto com a magia dos recomeços, para que toda mazela de maio tenha ficado mesmo por lá. Conto com os santos de junho, para orarem por mim.
domingo, 10 de maio de 2015
Para quando Maria vier
Nasci. Catarsiei-me no parto. Vi toda a minha vida respirando sem meus pulmões, batendo com um coração que não era o meu. Minha vida, de repente, estava nos meus braços, pesando pouco mais que dois quilos e meio. E chorava de susto por existir. E eu chorava de alegria por existir numa nova instância, proveniente dela, minha vida. Maria.
Ela chegou como brisa de boas notícias, soprando numa atmosfera mergulhada nos tons laranjas do fim da tarde. Minha razão, minha força vital, tudo que me impulsionava positivamente agora estava nela, não mais em mim.
Nasci quando fui mãe. Perdoei todos os nãos e coisas tristes que me foram dados pela vida no meio do caminho. Porque minha vida, dali em diante, era Maria. E Maria vinha para apagar todas as dores que se impregnaram no meu ser por todos os anos. Maria veio como meu botão de reset. Desde que ela chegou, viver passou a valer mais a pena.
Acordar de madrugada para acalentar o choro de Maria poderia ser fardo, mas não é. Porque se desperto às 3h da manhã, é só para ver o rosto dela. E quando as lágrimas cessam, velar o sono da minha vida é o presente mais doce que eu poderia querer.
Amo tudo em Maria: o cheiro, o choro e ainda mais o sorriso. Amo quando a tenho enroscada em meus pescoço, como se eu fosse o mundo dela, parecendo não saber que ela também é todo o meu. Eu sou plena e infinitamente mais feliz desde que ela chegou.
A única coisa que não sei é como posso eu ter dado à luz Maria. Se foi Maria que deu luz pra mim.
sábado, 17 de janeiro de 2015
Sua
Porque bateu de novo essa vontade
De chegar mais perto de você
De te ver chegar sem muito alarde
E com o olhar meu corpo aquecer
Mas aí me lembro como é tarde
E isso aqui bem no meu peito
Não pode, não deve ser amor
Se não faz sentido, nem é direito
Você, de existir, me despertar calor
Eu só sei que a boca cala
E o corpo pede
E a memória lembra o que nem foi
Você é meu inferno plural
Pronome singularmente astral
Que é único, mas muito para ser um só
Te amo pedindo pra te odiar
Te odeio jurando não te esquecer
Me afasto querendo me aproximar
Te toco implorando pra enlouquecer
Sou barco à deriva
Vou onde a maré levar
Com uma vontade ensandecida
De sonhar com você
Pra não acordar
Vou me perdendo na chama
Que me consome
Sendo terreno fértil, abandonado
Mas escriturado
No seu nome
quinta-feira, 25 de dezembro de 2014
O mal que ainda me faz, sem perceber
E o coração ainda salta. Talvez de burro que seja. Ou de ingênuo, atrasado, infantil. Eu cheguei a me sentir segura e auto-suficiente. Bem resolvida. A princípio, me vangloriei, achando que você poderia entrar e sair do meu campo de visão milhões de vezes, que nada aconteceria. Nada dentro de mim aconteceria. "Recebam minha passividade". Disse isso a todos os "para sempres" que nasceram na minha própria boca nos últimos anos. Fiquei exultante de perceber que eu tinha errado ao colocar todas aquelas promessas de eternidade no mundo. Finalmente, acabou.
Acabou até o segundo do olho no olho, onde toda a finitude caiu por terra. No segundo seguinte eu tinha por perto borboletas imaginárias agressivas, que cansadas de sobrevoar o meu estômago, decidiram que era melhor dar socos nele. E o coração respondeu. Ele não foi forte o suficiente para resistir ao alinhamento da sua íris com a minha: deu duplos twist carpados com maestria de ginasta veterano. Tinha o nó na garganta também. Foram os cinco segundos mais longos da minha vida, com o rosto congelado para não transparecer a confusão de sensações que eu tinha por dentro. Uma enchente de agonia, com pitadas sutis de prazer. Como se eu nunca tivesse te esquecido. Como se uma mínima parte de mim estivesse feliz em te ver, depois de tanto tempo. E essa felicidade, tão ínfima, era suficiente pra fazer o resto de mim sofrer o dobro.
Foi aí que eu percebi que a grande questão não é que não tinha te esquecido. Eu esqueci e foi justamente por isso que me mantive sã por tanto tempo. A grande questão, no fim das contas, é que eu nunca deixei é de te amar. E é aí que a coisa pega. Talvez seja mais fácil não esquecer alguém. Pensar o tempo todo. Ficar na merda logo de uma vez. É perceptivelmente mais perigoso achar que não tem mais sentimento ali. Subir num salto alto de autoafirmação e pensar que tudo acabou bem, porque você se refez. E eu me refiz, enquanto me mantive longe. Eu procurei amar outras pessoas, coisas, situações e rotinas que não incluíssem a sua presença. E eu consegui. Eu te risquei do meu mapa. Eu te tirei do centro das minhas atenções. O que eu não sabia era que continuava te amando, em algum lugar escondido de mim, como que num fundo falso. E não era difícil manter a sanidade assim, me afastando de tudo que tinha você no meio, abrindo mão de ambientes que antes eu tanto prezava, em nome da minha saúde mental, emocional, cardiológica. Em nome do meu amor próprio.
Fiquei arrasada quando percebi que é muito fácil pra você acabar com todo o meu final feliz. Basta cruzar meu caminho. Dobrar a minha esquina. Olhar nos meus olhos, depois de anos a fio. Sem esforço nenhum, você pode acabar com toda felicidade que eu construí pra mim, minuciosamente. Porque eu sou vulnerável a você. Ainda sou. Não sei bem se um dia deixarei de ser. Que barra. Meus "pra sempres" nesse momento riem de mim sem nenhuma pena. A existência deles tem razão de ser, afinal.
Mas tudo vai ficar bem. O trem vai voltar aos trilhos outra vez. Eu vou reassumir o
sexta-feira, 28 de novembro de 2014
Como se fosse música
Chegou o dia. Mal posso respirar. Deus, eu preciso lembrar de colocar ar nos pulmões. O zíper do vestido quase não fechou. E eu que tava com medo da roupa ficar folgada, porque nos últimos dias minha alimentação esteve um fracasso. Perco o apetite em situações de ansiedade. Mas de uma forma surpreendente, eu ganhei um quilo ou dois. Sorrio com o canto dos lábios e penso que é porque até a balança vê o bem que você me faz. Você me nutre.
Hoje é o dia mais feliz e desesperador da minha vida. A imprevisibilidade do que vem depois dá um nó cego na minha garganta. E ao mesmo tempo, é justamente o não saber que me leva a insistir. Porque são sempre cinquenta por cento de chance pra cada lado, êxito e fracasso. Não é assim?
Lembro do dia que você pediu a minha mão. Respondi te dando o corpo, que já era seu há tempos. Meu sim foi quase desesperado de tão lascivo. Nos amamos ali mesmo, no apartamento que hoje está mobiliado e decorado com o nosso jeito, nossa cara, pronto pra nos receber como marido e mulher, depois da cerimônia. Nos amamos naquela casa, à época vazia, que hoje está pronta pra acolher nosso amor em nossa primeira noite de casados. Em seguida partimos para lua de mel e aí retornamos, para começarmos a vida. Voltaremos ao mesmo apartamento para, sob o mesmo teto onde nos amamos daquele jeito tão intenso, criarmos nossos filhos, que virão. Frutos da nossa intensidade e nossa doçura, que eu sei que virão.
Respirar, respirar. Não posso esquecer de respirar. O céu está um absurdo de lindo, e tento entender isso como um recado de bom presságio, enviado pelo destino. Mas o coração insiste em querer sair pela boca, e eu suo frio. É medo. Medo típico de gente que já teve o coração partido em mil pedaços. Medo de quem tem medo de te perder. Mas apesar da agonia, eu quero dizer que acredito no amor que você sente por mim, e sei que é real o bem que você me faz. Você me tirou do meu breu, e só isso já vale um punhado considerável de gratidão. E tem ainda todo esse amor que eu te dou de volta, como que pagando uma dívida de vida. Só que em meio a toda essa reciprocidade que eu vejo, tem um monte de gente duvidando da gente. Talvez não da nossa veracidade, mas da nossa capacidade de ir adiante apesar das fortes ondas de negatividade. E eu tenho tanto medo de, por acidente, me desgrudar de você na correnteza e me afogar. Eu não sei nadar. Eu preciso de você pra me manter sã e na superfície desse mar.
Uma confissão: às vezes eu me fantasio de auto-suficiência e escondo meu ciúme no mais escuro dos meus porões, só pra não fazer você se sentir preso e desconfortável ao meu lado. Porque eu abomino tudo que possa te fazer não querer ficar na vida que pensamos pra nós dois. Eu finjo não ligar ou não perceber, quando tantas mulheres te lançam olhar de cobiça porque, afinal de contas, você é um cara muito sexy e desejável. E no meu silêncio disfarçado de não-ciúme, fico esperando que elas nunca saibam o quanto você é perito em saciar os desejos que desperta. Eu que o diga muito bem.
Eu te amo com tudo o que tenho e te peço, por favor, me ame com o que você puder amar. Sem cobranças, sem pesos, sem nada que agrida a naturalidade da qual o nosso amor precisa pra viver. Sem amarras. Eu aceito o seu amor como ele é.
Tenho que ir pra igreja. Todas as minhas melhores amigas estão me atormentando via WhatsApp, me alertando pra tomar cuidado com a hora. Você tá lá me esperando e não vou mais me demorar em ir ao seu encontro. Começar a nossa vida. Eu aceito as angústias e as delícias de ser sua mulher. Pago pra ver. Pago pra amar. E quanto a você, peço de novo: me ame. Como se eu fosse música.
Por esse momento eu sempre esperei
É novidade isso tudo. É inédito que eu corresponda. É inédito que seja correspondida. A hora certa parece ter chegado, absoluta e imponente, como o badalar de um relógio antigo, avisando que um novo dia começou. Um novo tempo. É estranho e lindo que estejamos os dois vivendo isso.
Para mim, a primeira vez que tem corpo junto do amor. Para ele, a primeira vez que tem amor junto do corpo. São primeiras vezes de ângulos diferentes, mas são sinceras. Despidas de culpas, medos, e principalmente mágoas antigas. Nada importa muito, quando é o sentimento que não importa pouco. A gravidade se torna só um detalhe banal perto da enormidade daquele tufão de paixão dentro do peito.
E tudo que me acontece eu quero contar pra ele. E o que não me acontece, eu quero contar também. Como se eu sentisse que nenhuma outra pessoa no mundo me entende tanto, me acolhe tanto, e muito menos me protege tanto assim. Nos braços dele está a segurança que eu busquei, sem encontrar em lugar nenhum.Nos entendemos, nos acolhemos. E escolhemos um ao outro para sermos assim, um para o outro. Nem nos meus melhores sonhos, viver tinha um gosto tão bom assim. É uma mistura de todos os sabores agradáveis ao paladar, só que na alma. Estou leve. Estou feliz. Depois de tanto murro em ponta de faca, posso dizer que consegui fazer do meu coração um cantinho quente, limpo e perfumado, para o amor morar.
E ainda tem a parte das delícias auditivas: a trilha sonora. Ondas que invadem os ouvidos, vibram por todo o corpo e trazem sorrisos bobos aos lábios. É inebriante cantar - e ouvir! - uma música de amor colocando toda a sua verdade nela. "Andar de mãos dadas na beira da praia, por esse momento eu sempre esperei". Ah, Caetano, como eu quis ver chegar o dia em que ia cantar essa sua canção com gosto e fé. Eles chegaram, enfim. O dia e o meu amor.
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domingo, 16 de novembro de 2014
Amor gramatical
Eu não soube que era
você por causa do sorriso torto ou da voz sedutora. Não foi a sua
facilidade em ser um homem naturalmente atraente que me fez perceber
que era você, e não qualquer outro. Não foi por causa da minha
crescente confusão quando estou ao seu lado que eu soube. Não foi a
síncope cada vez que você telefona. Não foi o frio na barriga ou o
coração acelerado que me disseram que era você o cara, e não
qualquer outro neste mundo. Poderia ser qualquer um: meu vizinho, o
carteiro, o cara que pega o mesmo ônibus que eu todas as manhãs,
Seu Manoel da padaria. Podia ser qualquer um, mas é você. Todo
torto, todo errado, todo minuciosamente traçado e pensado pra mim.
Eu soube, quando dentre
todas as suas falhas, relevei principalmente o seu português ruim. O
não saber conjugar o verbo “vir”, em qualquer outro ser humano,
me irritaria profundamente. Me irritar mais do que isso, só o fato
de você parecer ignorar que o verbo viajar é com j, mas viagem, o
substantivo, é com g. E quer saber? Eu não me importo. Porque a
gramática é ruim, mas o papo tão bom!
Eu costumo perder
amigos e não as correções ortográficas. Mas deixo passar os seus
deslizes gramaticais todos, porque me recuso a perder você. E,
acredite, em se tratando de mim, fingir não reparar na ausência de
coesão da sua escrita é uma grande prova de amor.
sexta-feira, 7 de novembro de 2014
Fica
Eu ando com síndrome do pânico ao ver o telefone tocar. Ao ver mesmo, não ouvir. É que meu celular acende os ícones do display quando vai tocar, antes de tocar. E aí pronto: basta ver aquelas luzinhas brancas que meu coração dá saltos mortais pra ginasta olímpica nenhuma botar defeito. Até que acende a tela toda e aparece um nome qualquer na bina, que não é o seu. Semi-síncope em vão. Tenho tido isso recorrentemente e assim têm sido os meus dias.
Tudo porque você disse que me amava. Mas você fez questão de dizer que me amava tanto, mas tanto, que sabia que eu merecia muito mais. Você disse que deseja pra mim que eu seja muito mais feliz do que você pode me fazer. Me falou do amor, inundado de consciência, que sabe que eu mereço mais. E eu fiquei aqui no meu canto, querendo que meu merecimento minguasse, só pra você caber como uma luva nele, sem folgas, sem espaços vazios.
Aí foi quando você começou a falar que eu me conformo fácil com as coisas e que preciso aprender a olhar pra dentro, reconhecer o meu valor. Eu preciso de alguém que acabe com essa minha mania feia de me contentar com migalhas, como se fossem suficientes, como se fossem o bastante. Não são.
Você fala de mim como se eu fosse uma pessoa tão bonita e boa, e fica tão zangado por eu não concordar, que chega quase a me convencer de me amar mais. É a condição pra você ficar? Se eu gostar mais de mim, você vai se sentir melhor para me dar esse amor que tem aí no peito? Esse amor, que você diz que é pouco, mas que é o amor que eu quero. Não se trata de merecimento. Se eu amar a mim mesma como você me ama, você me deixa te dar todo esse meu amor pra você em troca?
Tudo porque você disse que me amava. Mas você fez questão de dizer que me amava tanto, mas tanto, que sabia que eu merecia muito mais. Você disse que deseja pra mim que eu seja muito mais feliz do que você pode me fazer. Me falou do amor, inundado de consciência, que sabe que eu mereço mais. E eu fiquei aqui no meu canto, querendo que meu merecimento minguasse, só pra você caber como uma luva nele, sem folgas, sem espaços vazios.
Aí foi quando você começou a falar que eu me conformo fácil com as coisas e que preciso aprender a olhar pra dentro, reconhecer o meu valor. Eu preciso de alguém que acabe com essa minha mania feia de me contentar com migalhas, como se fossem suficientes, como se fossem o bastante. Não são.
Você fala de mim como se eu fosse uma pessoa tão bonita e boa, e fica tão zangado por eu não concordar, que chega quase a me convencer de me amar mais. É a condição pra você ficar? Se eu gostar mais de mim, você vai se sentir melhor para me dar esse amor que tem aí no peito? Esse amor, que você diz que é pouco, mas que é o amor que eu quero. Não se trata de merecimento. Se eu amar a mim mesma como você me ama, você me deixa te dar todo esse meu amor pra você em troca?
quinta-feira, 23 de outubro de 2014
Finale
Não vai ficar tudo bem. Já está. E não é falso otimismo ou algo que eu digo para você não se sentir de mal. Está tudo bem mesmo. Não ferimos um ao outro e eu acho isso a coisa mais linda do mundo. A serenidade e a leveza com que soubemos adular nossa fogueira de chamas altas é a minha melhor lembrança. Fomos completos enquanto duas pessoas formando uma só coisa. Fomos intensos e calmos, fomos desesperados um pelo outro. Mas fomos simples. Nos respeitamos. Fomos curtos e breves, mas valemos a pena.
Fazia muito tempo que pra mim, essa coisa, o amor, não valia tanto a pena. O fim não é mais um drama. Rola uma lágrima pelo rosto, dá saudade. Mas a vida muda, nós mudamos, e não precisamos fazer disso uma crise. Terminamos, mas cumprimos nossa missão de sermos luz um na vida do outro. Foi tudo delicioso, extasiante, e que bom que nós dois acontecemos. Que bom que nossa história existiu.
Esta é uma sensação nova e estranha, mas absolutamente agradável: pela primeira vez, eu não perdi um amor. Eu ganhei uma história linda pra contar pro resto da vida. Obrigada por esta experiência que eu nunca havia vivido antes. É a primeira vez que há carinho e ternura, depois do amor. Obrigada por curar um coração que andava tão desacreditado da beleza das coisas. Obrigada por me resgatar. Podemos seguir em frente agora, mesmo que separados. E, quem sabe, nossas vidas ainda possam se cruzar por aí.
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quarta-feira, 8 de outubro de 2014
Manifesto pelo direito de quebrar a cara
Caçula. Menina. Super-protegida. Quando eu era pequena, tinha uma "merió amiga", que além de estudar comigo na escola, era minha vizinha. Duda, o nome dela. Duda era virada. Eu, quietinha até demais. Duda descia as escadas do prédio pulando de dois em dois degraus, às vezes mais. Eu descia devagarzinho, de ladinho, segurando na parede, por falta de corre-mão. Degrau por degrau. Uma velhinha de 95 anos habitando o corpinho de uma menininha de 2 ou 3. Nas aulas de natação, Duda subia o trampolim quando a professora não tava olhando e tchibum na piscina. Eu tinha medo de me livrar das boias na piscina funda, e não desgrudava da borda. Terminei trocando as aulas de natação pela ginástica rítmica: a terra firme era mais segura. Nunca aprendi a nadar, assim como nunca aprendi a andar de bicicleta. E passei boa parte da vida numa bolha que me foi imposta. Mas eu não me queixava. Nunca fui de reclamar das coisas, e como não sabia como era a vida fora daquele sistema protetor, não me fazia falta. Me fazia era fraca, e eu não me dava conta.
Eu tive a melhor mãe do mundo. Mesmo. Não é só questão de força de expressão. Cada um que ache a sua mãe a melhor, eu sei. Mas a minha mãe, meu caro... Você não tá me entendendo. Ela possuía o coração mais bondoso, era a pessoa mais generosa que já conheci. Só que em tudo tem um porém. Hoje, com um pouco mais de idade e um pouco menos de mundo fantástico na cabeça, sei que minha mãe me achava frágil. E eu era, só que me manter guardada debaixo de suas asas, ao contrário do que ela parecia pensar, não era algo que me ajudasse objetivamente. Já viu bicho criado em cativeiro conseguir se virar na mata? Pois é. O pensamento é por aí.
Por esses dias eu tava pensando nas viagens do colégio que deixei de ir. Minha mãe tinha medo que eu, bobinha, fosse influenciada pelos adolescentes rebeldes que me cercavam e fizesse coisas que não fossem legais. Ela era professora, sabia bem o tipo de marmota que os alunos aprontavam nessas viagens... "Pedagógicas". Mas eu era tão bobinha, mas tão bobinha... Que era boa demais! Ela não podia imaginar, mas o motivo pelo qual ela não me deixava ir, era o mesmo pelo qual deveria me dar permissão. Não importava se ela não estava olhando. Qualquer coisa que eu fizesse, e que a desagradasse, me faria sofrer muito. Eu tinha uma consciência grande demais para uma garota daquela faixa etária e, qualquer passinho fora da linha, essa mesma consciência me pesava toneladas. Na minha vida escolar, por exemplo, eu tirei muita nota vermelha nas matérias de exatas. Era filha de um contador, mas não tinha habilidade com os números. Foram as palavras, herdadas da minha mãe professora de Português, que me fisgaram desde sempre. Eu poderia até começar a falar sobre quão emocionante foi o momento que descobri que sabia ler. Mas esta é uma outra história. Voltemos: os números e minha falta de aptidão para lidar com eles. Eu sofria profundamente pelas minhas notas vermelhas. Mas sofria mesmo. Muito. Me achava uma pessoa horrível. Era uma auto-tortura psicológica meio pesada. Até o dia em que, nos últimos meses de vida escolar, no meio dos meus dramas mexicanos, uma professora me aconselhou: "Pare de se preocupar tanto. A sua vida é tão mais que isso! Tem um mundo lá fora da escola, e quando isso aqui passar, você vai olhar pra trás e vai ver como tudo aqui é tão pequeno". Aquela fala ocasionou o começo do estalo que me levou à estrada que me fez quem eu sou hoje. E eu não parei de andar. Nem pretendo.
Fiz esse arrodeio todo, resgatando dilemas antigos, só para deixar claro que este texto é um manifesto pelo meu direito de quebrar a cara. Nós, pessoas super-protegidas desde o seio materno, desde o seio familiar, escolar e etc, temos o pleno direito de quebrarmos a cara. Sabe quando eu comecei a crescer? Quando dei de cara no chão, sem ninguém para me segurar, me amortecer a queda ou me por de pé outra vez. Foi quando eu aprendi que em alguns momentos a vida dói mesmo, é natural, e que a dor não precisa ser inimiga. Ela é sinal de que se está vivo e, por sua vez, estar vivo é uma vitória imensa, e um ótimo motivo para arranjar um jeito de se levantar. Um brinde ao ato educativo de se quebrar a cara!
Me manifesto pelo meu direito de me arriscar, de querer coisas que têm 50% de chance de dar certo. Brigo pelo meu direito de dobrar aquela esquina sem GPS para me mostrar se aquela rua é uma alameda ou um beco escuro sem saída. Quero viver essa coisa de escolher a avenida principal ou cortar caminho por uma paralela, sem saber qual das duas opções está engarrafada. Engarrafamento às vezes é bom pra gente pensar. Eu vou gritar pelo meu direito de querer o que eu quero hoje, mesmo sabendo que pode dar errado, só porque a probabilidade de dar certo existe, mesmo que ela seja menor. Eu enfrento a Terceira Guerra Mundial pelo direito de ter exatamente os desejos que eu tenho, porque a vida é pelo menos três coisas: minha, única e curta! Curta demais para viver pisando em ovos. Eu quero pisar firme, sem saber se debaixo dos meus pés tem solo fértil ou areia movediça. Eu quero arriscar, porque eu tenho esse direito. Se não rolar, existem outros caminhos, outras quedas, outras lições. Nenhuma escolha é vazia.
O mundo pode continuar me achando frágil. Mas olha, mundo, vou te falar uma coisa: eu aguento. Eu estou viva, portanto, aguento perfeitamente essa viagem louca, dolorosa, frustrante, excitante e linda que é viver. Porque se eu não aguentasse, eu simplesmente não estaria aqui.
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terça-feira, 7 de outubro de 2014
Poeminha fora de hora
Eu vou diminuir
Ir para o norte
Esperar que a sorte
Venha me buscar
Não foi culpa minha
Não foi culpa sua
Não foi culpa nossa
Eu me apaixonar
Te faço um verso
Simples, claro
E atesto
Aqui não era bem o meu lugar
Vou lembrar da gente
Te levar na mente
A pele esquenta
Só de imaginar
Vai e nem comenta
Vê se te orienta
Vou seguir meu prumo
Me jogar no mar
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