Marcadores

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014


Sete anos depois eu finalmente percebi que talvez nunca tenha sido amor, de fato. Das coisas que me lembro sobre o que eu sentia por você, a certeza que me bate mais forte é de que eu rezava. Todos os dias. Religiosamente e tendo o coração o mais contrito possível. Eis o lado bom do meu desfortúnio: me levou a Deus. Não porque eu precisava pedir que Deus te trouxesse para mim, mas porque eu precisava dizer a Ele o quanto eu te amava e o quanto eu te queria feliz. Nas minhas orações, nunca era eu. Era você primeiro.
A partir daí, todo aquele meu altruísmo tem explicação. Amor que se doa até a dor, até depois da dor. E cada vez que você me humilhava, eu resistia. I Coríntios 13 era o meu lema. "Crer. Suportar. Esperar". Não se tratava mais do amor que eu sentia, mas da minha fé cega, que me fazia acreditar que nada importava, um dia, seríamos um. Eu tinha fé nisso. Eu tinha fé que Deus faria isso, que isso era a vontade d'Ele. Era uma fé cega num Deus que - graças a Deus - decidiu que eu ficaria melhor sem você. E estou melhor. Até hoje.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Sonho



- Sem sono?
- É. Não consigo dormir. Acho que é medo.
- Medo de que, exatamente?

Foi quando comecei a te falar do meu medo de dormir, e acordar de nós dois. De fechar os olhos e abrir outros olhos e não mais te ver. Dormir naquele instante e de repente ter meu velho travesseiro de pena de ganso sob a cabeça. Não leve a mal, eu amo meu travesseiro de pena de ganso, mas amo mais o seu peito sendo meu travesseiro. Porque ele é seu. Porque ele faz com que sua respiração e seus batimentos cardíacos sejam minha canção de ninar. Nada poderia me fazer dormir melhor e é justo por isso que eu não consigo pregar o olho. Porque morro de medo de ouvir meu despertador me chamando pra vida real.

- Morro de medo de acordar da gente quando eu for dormir.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Chá



Tem dias que eu acordo me doendo. Hoje foi um desses dias. Minha avó me ofereceu um chá de camomila, dizendo que apesar de não resolver, podia me ajudar com a minha dor de amor. E eu nem tinha dito nada sobre o que estava sentindo, mas devia estar escrito na minha testa, já que ela percebeu. Ela me serviu naquela louça fina da família, que eu herdaria um dia e onde pretendia servir bolo e chocolate quente aos nossos filhos, quando o inverno castigasse demais na sua cidade.
Naquele momento eu continuei sem dizer nada à minha avó, nem sobre o que estava sentindo, nem sobre coisa nenhuma. Fiquei ali apática, assistindo o chá esfriar, vendo a fumaça sumir na atmosfera da cozinha, o vapor virar gotículas, suando a borda da caneca. Fiquei vendo o açúcar se depositar no fundo da xícara, feito eu, amargando no fundo do meu poço. Fiquei sentada na cabeceira da mesa, pagando a minha conta.
É difícil lidar com uma dor que lateja no peito e irradia para os cotovelos, passeia pelo corpo todo, e muda de lugar tão rápido, que não te deixa perceber ao certo onde é que dói. Fazia frio em pleno verão nordestino. Um frio que vinha de mim. Eu só fazia piscar automaticamente os olhos, à medida que poças d'água se formavam neles. Eu batia minhas pálpebras uma na outra, pra escoar a água da minha chuva interna, se empoçando nas minhas calhas. Mas nem o processo de chover de dentro pra fora poderia me lavar dessa sujeira toda. Amor parado apodrece.
Vovó me diagnosticou com infecção passional. Disse que quando era moça, também teve seus momentos ruins. Pensei em explicar para ela o tamanho da minha desfortuna, quando sua doçura desgraçada atingiu o paladar da minha alma. Mas ela não entenderia. Ninguém que não te visse com os meus olhos entenderia. Ninguém além da gente entende, quando amar dói assim. Se eu tentasse falar, vovó ia me dizer que passa e eu não ia acreditar, embora já tenha passado outras vezes. 
Por fim, enxuguei as lágrimas com as costas das mãos e disse à minha avó que tudo que eu mais queria era só ser uma pessoa normal, dessas que amam, são amadas, comem, respiram e vivem. Ela me deu um beijo amoroso na testa, com cara de gente velha que conhece todas as esquinas da juventude, e estava me vendo sem nenhum glamour, com o salto agulha preso num bueiro entre a Tomázia e a Vigário Tenório. Burra, presa às minhas pedras. "Suas asas não são só enfeite. É hora de aprender a voar. Vá para o sul deste encanto, ou para o sudeste que melhor lhe couber", foi o que ela falou. Tenho dúvidas se nessa vida ainda descubro o que ela quis dizer. Antes do último gole de chá, percebi que nunca soube possuir asas.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Meias


Era você sorrindo, dizendo com graça o quanto somos parecidos. Era eu morrendo de medo que isso acabasse com a gente. Eu sempre toda insegura, assistindo você me amar, temendo que você não suportasse conviver comigo. Porque você sempre disse que eu era você de saias e maquiagem. E sempre ouvi dizer que ninguém aguenta os próprios defeitos, em outra pessoa. 
Mas tem também a parte que nossa história fez da minha vida o avesso do testamento "Amai ao próximo como a ti mesmo". Nunca fui muito boa de me amar, exceto quando comecei a amar você. Porque quando você chegou, eu não tive escolha senão te amar. É impossível não amar uma pessoa como você, basta que haja a sua presença no mundo. Sua existência é bálsamo aos corações sensíveis. E meu coração é muito sensível, apesar da falta de amor próprio. Deixei de me amar justamente por sensibilidade em excesso: dei todo o amor que tinha no peito,  não sobrou nem para mim. Desobedeci o mandamento. Amando, pequei. Mas quando você veio o amor voltou. E quando te amei, reaprendi a me amar. Porque amei em mim nossas manias, que se fizeram nossas, pois eram minhas e iguais às suas. Passei a amar a mim mesma como ao próximo. Amei a mim mesma como amo a você. Amei o você que há em mim. Obrigada.
Só que hoje me peguei com medo. Porque segundo as leis da física, os opostos é que se atraem. Mas você me disse que juntos, somos opostos ao mundo e não um ao outro. Somos uma bolinha de meias: um par junto, no avesso. No fundo, acho que você tem razão.




sábado, 21 de dezembro de 2013

Altruísta? Egoísta!


Queria conseguir mensurar o quão idiota eu me torno, ao colocar seu nome diariamente nas minhas preces noturnas. Ou melhor, não queria, não. Acho que que eu teria muita vergonha de mim, ficaria constrangida na minha própria presença. É muita falta de bom senso.
Pelo amor de Deus, onde já se viu? Eu, colecionadora de fragilidades, portando todo esse instinto protetor? É dose, mas não sei amar de outro jeito. E estando você fora do alcance dos meus cuidados, eu rezo. Converso com seu anjo da guarda, bato altos papos com ele de madrugada, como se tivesse esse direito. O meu anjo fica até com ciúme, mas é que acho mesmo o diálogo com o seu guardião mais divertido. Porque tem você no meio. Porque envolve a forma como você ri, dorme, acorda e vive. E você é bem melhor do que eu. Eu não tenho graça nenhuma, e meu anjo só sabe falar de mim.
Todas as noites, ao encostar a cabeça no travesseiro, me imagino abraçando seu anjo bem apertado, chovendo no molhado e dizendo para ele cuidar de você, como se a existência dele tivesse alguma outra razão que não essa. Velar toda a sua vida, ficar à espreita de todos os seus pensamentos, movimentos, sentimentos e decisões. Eu invejo tanto o seu anjo... Que minha reza chega a quase ser pecado. Que meu amor, em forma de oração, beira o egoismo. 

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Se

Quero dizer que sim. Eu enfrentaria todos os becos escuros que estivessem à minha frente, se eles levassem até você. Eu me faxinaria por dentro, limparia essa bagunça indecente que se tornou o meu interior, só para você entrar. E eu escancararia as minhas portas para você. Sem drama. Sem medo. Sem receio. Sem pensar duas vezes.
Ele voltou latejado, como há muitos anos não se mostrava a mim. E agora sei que é mesmo ele porque dói. Porque amar, não importa o quanto se enfeite a coisa, sempre vai doer. Sempre. A grande questão é se vai valer a pena ou não deixar que doa. Mas sempre dói e ninguém foge disso. E eu tenho experiência acumulada em dores inválidas.
Mas eu evitaria analgésicos e anestesias, eu me lançaria. Eu... Se você fosse real.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Formatura


Deixei um bilhete sobre a mesa pequena da sua sala. Não era despedida. Era um registo, de próprio punho, de que eu havia ido embora. Não gosto de me despedir, e afinal de contas, ainda vamos nos encontrar. Só não vamos mais nos fundir, nos misturar, nem trocar sonhos ou saliva. Tentamos.
Quase acreditei que eu fosse ser seu mundo, e quase cheguei a fazer de você o meu. Nos preocupamos tanto em sermos os diferentes que se completavam, que esquecemos de olhar para as semelhanças que talvez pudessem existir entre nós. Agora já não há mais tempo de reparar se elas um dia estiveram ali. É tarde.
Cumpri meu papel de ser inteiramente sua, com tudo que eu tinha, no tempo em que nós dois fomos um. Você, meu tutor. Meu porto seguro. Minha escola de vida. Minha faculdade de como ser eu mesma. Minha pós-graduação de como ser uma mulher. Mestrado de autoconfiança. Doutorado de autoafirmação. PhD de sex appeal.
Nos amamos carnalmente por cinco meses e vinte e sete dias. Faltava algo e quando eu pedi mais, você me ofereceu as chaves do seu apartamento, espaço para minhas roupas no seu armário, lugar para minha maquiagem no seu banheiro e escolheu o nome dos filhos que viriam daqui um ano ou dois. Você me ofereceu tudo que eu sempre quis, mas nada do que eu precisava: um pouco da sua alma.
Por isso resolvi partir. Porque percebi que não era sadio brincar de casinha quando não tem alma envolvida. Era tudo bom, e tudo uma delícia, mas era tudo tão vazio. Eu não podia continuar sendo a jovem madura querendo segurar a onda de um adolescente de meia idade. Nossos papéis trocados não nos favorecem. Obrigada por me mostrar que tenho asas. Ainda tenho tempo de aprender a voar, e não vou conseguir fazer isso enquanto estiver morando em sua cama.
Você me transformou numa mulher forte. Bem do tipo que não suporta ficar à espreita de homens como você. Eu já me anulei antes. Não vou fazê-lo de novo. Depois da qualificação: formatura.