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sábado, 3 de março de 2012

"Boto ele no colo, pra ele me ninar"

É desejo, sim. Mas tem também um instinto materno danado que me bate no peito. Quero amá-lo, tê-lo e ao mesmo tempo ser dele. E quero-o em meu colo. Enquanto o embalo, eu encerro todos os meus dilemas: alentá-lo é carícia para minha alma. Acho que isso seja mesmo amor, porque cuidar dele significa cuidar também de mim.
Eu, que carreguei tantas das dores do mundo, sei de cor o que o sofrimento faz de bom e de ruim. E quero estar ao lado dele para segurar-lhe a mão. Para lhe ser o porto seguro que diz, cheio de firmeza: "isto também passará". Já percorri caminho parecido e sei onde se deve pisar e onde as pedras são duras demais para os pés. Mas não vou soprar-lhe o destino, deixarei que ele descubra e faça o seu próprio caminho só. Me limitarei a, em silêncio, segurá-lo pela mão. Por mais que eu queira sofrer em seu lugar, sei que tudo o fará crescer, no fim das contas.
Passei tanto tempo procurando alguém que me pusesse no colo, e hoje sei que precisava mesmo era de alguém a quem cuidar. Acho que nasci para ser um pouco mãe em todas as relações que me levam a criar laços: mãe-amiga, mãe-irmã, mãe-filha, mãe-tia... E por que não dizer mãe-amor? Velando o sono dele, descobri que os suspiros que ele dá, sobre o travesseiro molhado de lágrimas, fazem brotar em mim a maior ternura do mundo. É o pedaço que mim que me faltava.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Perdidamente salva

Andei querendo me deixar levar. Mergulhei de cabeça no mar, porque descobri que não tem correnteza que me leve se eu ficar parada na areia. E me lembrei que não sei nadar. Mas quando a gente quer, dá um jeito: se debate, arruma uma boia, se mantém. Eu até refleti antes de entrar na água, afinal ir para o mar sem saber nadar é uma temeridade. Aí uma voz aguda sussurrou no meu ouvido que "viver é sempre uma temeridade". Para o meu bem ou o meu mal, ouvi a voz. E me larguei nos braços das ondas.
Engoli muita água, voltei para a areia em agonia e mudei de metáfora. Ao invés de mar, terra firme e pé no chão. Várias estradas à minha frente, e eu sem mapa que me guiasse. Mas "viver já é uma temeridade". Fui. Errei o caminho, peguei um atalho torto: ele não dava onde eu queria ir. Mas o mundo nem acabou, acredita? Isso me surpreendeu, porque eu achava que essas coisas doessem.
Me enganei porque atrás dos belos arbustos de onde eu pensava que vinha o canto dos pássaros, não tinha nada. Nada do que eu procurava, pelo menos. Veio a noite e ficou escuro, mas surpreendentemente, nem medo eu tive. Se na hora estava escuro e não dava para seguir viagem, eu ainda podia sentar e olhar as estrelas.
O mundo não acabou, lembra? Cedo ou tarde tem que amanhecer de novo e o sol há de vir. E quando tudo estiver claro novamente, vou poder mudar de estrada. E me perder quantas vezes for preciso, até chegar onde eu quero. Não tenho mais pressa, nem desespero, nem medo. Porque ouvi dizer por aí que Deus não demora, não. Ele capricha!

domingo, 18 de setembro de 2011

Estrada

A gente nunca sabe quando a vida vai dar uma reviravolta. Às vezes, o próximo passo parece tão certo, tão marcado; e na hora de andarmos, simplesmente mudamos a rota.
Eu sou completamente derrotista. Quando algo sai fora do esperado, me vem o desespero. Fico no chão. E nem sempre meus dramas condizem com as minhas catástrofes. Aliás, nem sempre minhas mudanças de caminho são catastróficas. Mas é sempre assim que acontece: sair do roteiro, num primeiro momento, é sempre sinônimo de que deu errado.
Mas quem disse que fugir do script algo negativo? Toda boa história tem um mistério.Não tem graça assistir a um filme que já se sabe o final. Um bom roteirista sabe guardar em segredo o que planeja para seus personagens. Deus é o melhor roteirista do mundo. A nós, cabe atuar. Não no sentido de fingir, mas no sentido de saber viver a vida como espetáculo que ela é. Um bom ator nem sempre prova sua qualidade quando tem o texto na ponta da língua, mas quando se sai bem na arte do improviso.
É essa a essência do jogo: nunca saber qual a próxima cena, a próxima fala, o próximo movimento... Mas estufar o peito e atuar. Ou melhor, viver. Nossa noção de êxito e fracasso é um tanto quanto equivocada. O que muitas vezes vemos como fundo do poço, pode ser na realidade um atalho para o apogeu. Viva, atue, improvise! Clichê, mas verdade: Deus, nosso roteirista, escreve certo por linhas tortas e sempre sabe o que faz.